COMENTÁRIO
Judaísmo e medicina
HENRY I. SOBEL

     Não me considero capacitado para falar sobre a atual situação da assistência médica no Brasil. Como rabino, prefiro focalizar a questão sob a perspectiva judaica.
     Os judeus sempre foram muito solícitos em seu atendimento aos doentes e dão grande valor à profissão médica. Nos tempos antigos, medicina e religião estavam intimamente ligadas. Os sacerdotes eram os guardiães da saúde pública; exerciam as funções de médico e consideravam sua vocação um dom espiritual.
     O enfoque judaico na medicina bíblica recai nas normas de higiene pública, as quais são notáveis não só para a época, mas mesmo para os padrões atuais. A higiene e a profilaxia tornaram-se dogmas religiosos cujo objetivo era o bem-estar e a preservação da nação. Dos 613 mandamentos, 213 são de natureza médica. Prevenção de epidemias, supressão de doenças venéreas, rigorosas medidas dietéticas e sanitárias, regras para isolamento e quarentena, mesmo a observância de um dia de descanso, o Shabat – estas e outras prescrições impediam a propagação de várias doenças que nos países vizinhos grassavam incontidas.
     Pela sua própria essência, o judaísmo prega a santidade de cada vida humana. Tendo sido criado "à imagem de Deus", o homem traz dentro de si a divindade e a dignidade do seu criador. Mais ainda, a paternidade universal do Todo-Poderoso implica a igualdade entre todos os homens. Portanto, nós afirmamos categoricamente que todos os seres humanos, independente de classe social ou econômica, têm direito à assistência médica.
     No Brasil, onde a medicina já alcançou alto padrão, mesmo assim observamos constantemente que as técnicas modernas estão apenas à disposição de uma minoria privilegiada. Todos estamos cientes da crônica enfermidade financeira dos nossos hospitais e faculdades de medicina, da falta de medicamentos e material hospitalar.
     Quantas vezes o doente enfrenta uma fila de várias horas, sem conseguir ser atendido! E mesmo quando ele chega até o médico, este último tem tão pouco tempo para examiná-lo que não pode estabelecer nenhum relacionamento humano com o paciente. Na “medicina de massa”, da maneira como ela é praticada no Brasil, os seres humanos são tratados coletivamente, sem nenhum amparo psicológico.
     Parece-me claro que muita coisa precisa ser mudada para que possamos atender às necessidades de todos os brasileiros, independente de raça, cor ou credo. O único remédio para erradicar o mal é dar à saúde uma prioridade máxima.
     O judaísmo se baseia na convicção de que um corpo sadio é o pré-requisito para um espírito sadio. Um atendimento médico adequado permite ao homem desenvolver sua capacidade intelectual e moral, e o conduz, em última análise, ao conhecimento de Deus e, portanto, a uma vida mais ética. Um bom programa de assistência à saúde é indispensável para reparar os defeitos de corpo e a turbulência da alma.
     Que possamos todos nós, judeus e não-judeus, continuar a trabalhar e lutar juntos em prol da nossa causa comum: um Brasil mais sadio, física e espiritualmente.

- Fonte: O Judeu na Década de 80 (Ed. Cultura).
- Henry I. Sobel é presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista.

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