CONHECIMENTO
/ TECNOLOGIA
Para
Pierre Lévy, computadores
são apenas auxiliares cognitivos
O
filósofo francês Pierre Lévy, um dos mais influentes estudiosos
da cibercultura em todo o mundo, participou da série de palestras
do Fórum de Debates Permanente “Universo
do Conhecimento”, promovido pela Universidade
São Marcos em São Paulo (SP). Ele foi o terceiro convidado,
cujo tema deste ano foi “Planeta Terra: um Olhar Transdisciplinar”.
Lévy
é titular da cadeira de Pesquisa em Inteligência Coletiva
na Universidade de Otawa (Canadá). Atualmente, um dos seus
principais trabalhos é constituir uma nova linguagem da web
que permita a visualização de processos de inteligência coletiva
de dados que circulam no ciberespaço.
“Estamos
criando uma nova geração de linguagem para aumentar a cognição”,
disse Lévy durante a palestra. Ele explicou que esta linguagem
terá uma dimensão sintática e semântica. “Não é sintaxe, mas
uma nova sintática. O espaço é semântico, cognitivo, intelectual,
hipertextual, fractal, complexo”.
A
idéia é que o endereçamento seja feito no espaço semântico,
ao contrário do usado hoje em dia, que é numérico (digital).
A novidade complementa seus trabalhos anteriores sobre as
tecnologias da inteligência, a engenharia do conhecimento,
a dinâmica ideográfica e as árvores das competências.
Partindo
do tema da palestra “Desenvolvimento Humano, Ciberespaço e
a União do Conhecimento”, ele chamou a atenção para a correlação
entre desenvolvimento humano e as ciências humanas ou sociais.
Para o filósofo, há uma relação triangular entre desenvolvimento
humano, ciências humanas e o ciberespaço.
A
finalidade das ciências humanas é sustentar o processo de
desenvolvimento humano e a do ciberespaço é a possibilidade
de viver a inteligência coletiva, que ele define como a capacidade
de trocar idéias, compartilhar informações e interesses comuns,
criando comunidades e estimulando conexões.
O
grande problema é reutilizar o conhecimento que funciona localmente
para ser compartilhado entre todos. De acordo com ele, as
ciências sociais não dialogam entre si, diferentemente das
ciências naturais. “Um físico pode dialogar com outro em qualquer
parte do mundo porque eles têm a mesma linguagem”. A resposta
é o ciberespaço. “Mas não é a solução, é apenas uma ferramenta
para nos esforçarmos para reunir as ciências humanas, elementos
importantes para o desenvolvimento humano” - disse.
Partindo
do primeiro sistema de escrita universal, o alfabeto, que
permitiu o desenvolvimento das civilizações, ele chegou à
invenção da imprensa para explicar o grande salto dado na
evolução humana. “A imprensa deu suporte para novos sistemas
de cognição”. Para ele, as inovações lingüísticas são sistemas
de representações que acarretam progressos imensos. “Os sinais
transmitidos e compartilhados pelos seres humanos hoje em
dia são sinais ubíqüos, interconectivos e que provocam ação
e reação autônomas”.
Dentro
do ciberespaço, é possível acessar dados em tempo real, as
publicações podem ser imediatas e equipes de vários países
podem trabalhar em conjunto. “Tenho razões para crer que as
ciências humanas devem provocar uma revolução, que já está
em marcha graças ao uso do ciberespaço, um observatório do
funcionamento da sociedade humana”.
Do
transistor à noosfera, para Lévy a utilidade dos computadores
foi dada não pela descoberta dos transistores, mas devido
à existência de uma linguagem formal própria para a máquina.
Com a criação do micro chip e do PC, vieram os servidores
e a internet. Depois, a web
permitiu a interconexão por meio dos links.
Hoje,
diz ele, estamos na etapa da web
semântica, onde funcionam sistemas de pesquisa de informações
mais potentes, das conexões sem fio como a Wi-Fi (termo que
surgiu das palavras wireless fidelity). “A web
semântica expressará a inteligência coletiva da humanidade
interconectada no ciberespaço” - disse ele. O futuro da web
semântica é chegar ao que Lévy chama de noosfera, ou seja,
o aumento da linguagem cognitiva ou a visualização em tempo
real da dinâmica global da inteligência coletiva.
Pierre
Lévy concluiu a palestra dizendo que sua intenção não é desenvolver
a inteligência artificial, mas a inteligência ampliada, pessoal
e coletiva. “Não acredito na IA. Os computadores sempre serão
auxiliares cognitivos para indivíduos ou grupos. A máquina
faz o papel do assistente cognitivo mais poderoso. O que quero
é ver o progresso da informática para o aumento do conhecimento
humano” - finalizou.
página
inicial