HISTÓRIA
De
Pazuzu a Jenner: uma
breve história da medicina
HÉLIO
DANIEL CORDEIRO
Edward Jenner |
Ao
longo dos séculos as epidemias mataram milhões de pessoas
em todo o mundo. Os médicos de então não conheciam os seres
microscópicos que produziam as várias doenças, nem sabiam
como evitá-las. Foi a menos de dois séculos que se descobriu
a causa das doenças transmissíveis e começaram as pesquisas
científicas de modo sistemático para encontrar a cura das
mesmas.
O
enfoque do presente do estudo é a análise da medicina justamente
anterior a estas pesquisas, para assim seguirmos os passos
daqueles pesquisadores que, muitas vezes tateando no escuro,
fizeram a ciência e a medicina avançarem a duras custas e
contra o obscurantismo de suas épocas.
A
palavra “contágio” vem do latim contactus e significa a passagem de alguma coisa de uma pessoa,
animal ou objeto para outra pelo contato físico. Antes de
se tornar um conceito médico, essa idéia surgiu como conceito
mágico, que sobrevive ainda em alguns povos indígenas.
Nas
sociedades primitivas fortemente inspiradas pela religião,
como entre os assírios e babilônicos na Mesopotâmia, supunha-se
que as divindades nacionais como Pazuzu
puniam com doenças aos humanos desobedientes. Como acreditava-se
que a doença era produzida pelos deuses e demônios, o único
recurso contra qualquer enfermidade era acalmá-los e agradá-los.
Os médicos pertenciam à classe dos sacerdotes, pois sem o
conhecimento religioso nada era possível.
Através
dos textos bíblicos também podemos ter muitas informações
de como estão interligadas as idéias de pecado, impureza,
sujeira, doença, castigo e morte na cosmovisão israelita. Nesta mesma linha de raciocínio, através
de um inovador código de higiene, as escrituras hebraicas
instruíam o povo a precaver-se contra impurezas e doenças
então muito comuns, como a lepra.
A
civilização grega antiga foi o ponto de partida de toda a
cultura científica do Ocidente Moderno. O grego Hipócrates
(c.460 a.C. – c.377 a.C.) é considerado o “pai da medicina”.
A medicina desenvolvida pelos gregos marca uma importante
etapa na evolução do pensamento médico. Inicialmente, ela
se assemelhava à medicina praticada por outros povos: uma
mistura de concepções mágicas, religiosas e receitas populares.
Para
Hipócrates a medicina era um conhecimento empírico adquirido
pela experiência e pela observação. Aristóteles (384 a.C.
– 322 a.C.), por sua vez, diferenciou o conhecimento da técnica,
considerando esta última como inferior por não ter uma base
sólida. A filosofia aristotélica forneceu uma base geral para
a medicina racionalista, enquanto nesta mesma linha de pensamento
as teorias hipocráticas tiveram seu ápice nas obras do médico romano
Cláudio Galeno (129-199/200 d.C.).
Embora
criticasse várias concepções de Aristóteles, Galeno foi fortemente
influenciado por este pensador e acreditava que o verdadeiro
médico devia também ser um filósofo. Galeno defendeu o conhecimento
da física, astronomia, fisiologia e outras ciências como base
para a medicina.
Os
romanos com seu espírito prático deixaram marcas importantes
na medicina nascente. Plínio o Velho (século I d.C.) em sua
obra História Natural fez uma compilação de tudo o que se sabia em sua
época sobre animais, vegetais e minerais, descrevendo-os e
dando seus usos médicos.
Após
a queda do Império Romano o cristianismo se tornou a única
força que tentou unificar todos os povos europeus. Apesar
do desinteresse geral pelo estudo e pelo conhecimento erudito,
alguns autores conservaram a tradição grego-romana. Um dos
mais importantes foi Isidoro de Seveilha
(570 - c.633/636), que procurou compilar todo tipo de conhecimento,
escrevendo uma espécie de enciclopédia na qual tratava também
da medicina, baseando-se principalmente em Galeno.
A
influência do cristianismo na medicina nessa época foi negativa,
ressurgindo com força a idéia de que a doença era fruto do
pecado. Especialmente no século VII surgiu o culto popular
dos santos curadores, como São Roque, São Sebastião e os irmãos
Cosme e Damião. A medicina como profissão praticamente desapareceu.
Muitos
mosteiros foram criados nessa época para dar apoio aos doentes.
Os monges tinham a obrigação de estudar as versões latinas
simplificadas de Hipócrates e Galeno. Copiavam os textos clássicos
para preservá-los e vendê-los a outros mosteiros. Alguns destes
mosteiros na Itália, França, Espanha, Alemanha e Irlanda tinham
importantes bibliotecas. Uma dessas bibliotecas na Suíça do
século IX tinha seis mil livros médicos.
A
atividade principal dos mosteiros continuava a ser religiosa,
mas em alguns casos o estudo da medicina deve ter se tornado
excessivamente importante, ao ponto do Concílio de Clermont
proibir em 1130 a prática médica aos monges, alegando que
ela os distraía das obrigações principais.
Nesta
época, a cultura e a ciência islâmicas viviam seu esplendor
com dois grandes centros político-religiosos:
Bagdá (no atual Iraque) e Córdoba (na Espanha atual). Inicialmente,
a cultura médica dos árabes era do mesmo tipo de outras civilizações:
religiosa e mágica. Os escritos do início do islamismo mostram
que se dava grande valor a amuletos, talismãs e fórmulas mágicas
na cura de doenças.
Em
sua expansão para leste e oeste os árabes entraram em contato
com a tradição grego-helenística, egípcia, mesopotâmica
e indiana, surgindo desse intercâmbio um grande interesse
pelo estudo dessas tradições, especialmente do pensamento
grego. As mais importantes obras antigas foram traduzidas
e comentadas pelos árabes e passaram a circular pelo mundo
islâmico. Na Pérsia surgiram importantes médicos, como Rhazes
(860-932) e Avicena (980-1063),
enquanto em Córdoba destacaram-se Averróis
(1126-98) e seu aluno judeu Maimônides (1135-1204). Os dois últimos foram também filósofos
e muito influenciados por Aristóteles.
Entre
os séculos XI e XII os europeus iniciaram a tradução para
o latim de muitos textos antigos conservados pelos árabes
e de obras escritas pelos próprios intelectuais muçulmanos.
Em várias cidades iam surgindo as primeiras universidades:
Paris (1110), Bolonha (1113), Oxford (1167), Montpellier
(1181), Pádua (1222), onde foram retomados os estudos principalmente
de Galeno e Avicena.
Ao
final da Idade Média, a Europa foi varrida por várias pestes.
Uma das piores foi a peste negra (uma combinação de peste
bubônica e pneumonia) iniciada em 1347/48 que teria matado
um terço dos europeus. Guy de Chauliac,
um médico da época, afirmava que para se prevenir contra a
doença “nada era melhor do que fugir do lugar antes de ficar
infectado”.
No
final do século XV e início do XVI as grandes navegações européias
em direção à África, Ásia e América produziram enorme intercâmbio
de enfermidades, como febre amarela, cólera e sífilis. Dos
diversos médicos europeus que refletiram sobre a idéia de
contágio, um dos mais importantes foi o veronês
Girolamo Fracastoro
(1478-1553).
Manuel
Álvares (1545-1612) foi um importante médico português que
se tornou professor na Universidade de Toulouse. Em 1585 houve
uma peste bubônica nesta cidade e Álvares escreveu um livro
em que tentava explicar a enfermidade e indicar como se podia
evitá-la e curá-la.
Lenta
mas firmemente avançavam na Europa a medicina e a prevenção
das doenças contagiosas. Philippus
Bombastus (1493-1541), conhecido
como Paracelso, dizia que o maior
obstáculo ao desenvolvimento do conhecimento era o respeito
aos livros tradicionais. Era necessário retornar ao “livro
da natureza” e adquirir conhecimento pela experiência. Andreas
Vesalius (1514-1564) fundou a anatomia moderna. Santorio Santorio (1561-1636) foi
um dos primeiros a estudar alguns dos aspectos físicos do
corpo humano, procurando medir todos os fenômenos estudados.
Jan Baptist van
Helmont (1577-1644) aplicou as teorias
de Paracelso.
William
Harvey (1578-1657) mostrou que o sangue circula por todo o
corpo, bombeado pelo coração. O padre Athanasius
Kircher (1602-1680) publicou o livro Pesquisa Físico-médica sobre a Doença Contagiosa que se chama de Peste.
François de la Boe
(1614-1672) tentou explicar as enfermidades através das noções
de alcalinidade e acidez. Para ele, a fonte das enfermidades
era puramente química, podendo também ser combatida por meios
químicos. Thomas Sydenham (1624-1689)
publicou um livro sobre as “febres”. Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) estudou as febres produzidas pelos pântanos.
Frederick Hoffmann (1660-1742) adotou uma visão físico-química
do corpo humano. A reforma das prisões inglesas foi obra do
filantropo John Howard (1726-1790),
que conseguiu diminuir a incidência de tifo, tuberculose e
febre tifóide. O naturalista Joseph Priestley
(1733-1804) realizou estudos sobre o ar e a vida. Louis Bernard,
o barão de Guyton de Morveau (1737-1816), companheiro de pesquisa de Lovoisier, foi um dos investigadores dos ácidos minerais em
forma gasosa, concluindo pela sua grande eficácia purificadora.
O
inglês Edward Jenner (1749-1823)
manifestou precoce interesse pela Biologia e seguiu a carreira
da Medicina. Um dos meios de se tornar médico naqueles tempos
era estudar com outro médico, e Jenner se fez então aprendiz junto do cirurgião Daniel Ludlow. Aos 21anos entrou para o St. George’s Hospital, de
Londres, a fim de trabalhar com John Hunter,
o maior cirurgião da época.
Jenner é considerado o pai da imunologia.
Foi ele quem inicialmente realizou várias imunizações e até
hoje se discute o desrespeito à bioética
por ele praticado mas, é inegável que seus experimentos mudaram
de forma drástica a história da medicina. Após a publicação
de An Inquiry into Cause and Effects of the Variolae Vaccinae o método ficou
conhecido como "variolation" e se difundiu inicialmente pela Inglaterra
e posteriormente pela Europa e pelo Mundo.
Edward
Jenner viveu na mesma época em a Revolução Industrial modificava
o modo de produção nas Ilhas Britânicas. As ciências e a medicina
que até então andavam em passos lentos, meio que tateando
no escuro, passaria a partir de então para uma fase de pesquisas
mais sistemática e desenvolvimento mais acelerado.
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Fonte: Revista eletrônica Vox Scientiae (NJR-ECA/USP).
- Hélio Daniel Cordeiro, editor da revista MEDICINA
E SAÚDE, é formado em Filosofia pela FFLCH/USP,
com especialização em divulgação
científica pelo Núcleo José Reis da ECA/USP.
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