CINEMA
“O
Jardineiro Fiel”:
verdade ou ficção?
LUCIANA
MOURÃO FANTI
Rachel
Weisz e Ralph Fiennes |
Conferir
a beleza e talento de Rachel Weisz,
vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme
O Jardineiro Fiel,
é só um dos motivos para se assistir ao último trabalho do
diretor brasileiro Fernando Meirelles.
O
filme é tão bonito que por duas vezes paguei o ingresso para
ver as paisagens do Quênia, os belos atores, a história de
amor e de conspiração. Mas confesso: voltei ao cinema não
pelas cores e granulados da tela, ou pela inquietude talentosa
da câmera do diretor de Cidade
de Deus, fui recuperar os detalhes que haviam passado
batido na primeira vez, mas sem deixar de me causar bastante
susto.
Ao
final, ainda satisfeita pela beleza do filme, fui lembrada
pelos letreiros (pela segunda vez) de que o roteiro é baseado
em um romance ficcional. Ainda bem. Meirelles põe na tela
o best-seller de
John Le Carré, no qual um funcionário
do governo britânico, apaixonado por jardinagem e residente
na África, investiga o assassinato brutal de Tessa,
sua esposa jovem, bela e ativista política, por investigar
pesquisas de um novo medicamento para o tratamento da tuberculose
no Quênia.
O
medicamento, Dypraxa, pertencia
a um grande laboratório farmacêutico franco-suíço, o KDH,
mas estava sendo testado pela empresa Three
Bees em pacientes africanos (chamados
de cobaias no filme), quanto à sua eficácia e segurança. Mas
aí é que começavam os problemas. Os participantes da pesquisa
desconheciam o fato de que recebiam um medicamento novo cujos
efeitos benéficos e maléficos eram, portanto, ainda desconhecidos.
Mesmo
assim, “consentiam” com o tratamento (havia um campo marcado
com “X” em uma ficha, representando o consentimento dos pacientes).
Aqueles que não o faziam simplesmente ficavam à margem de
qualquer tipo de terapia para sua condição de HIV positivos
e tuberculosos. O pior de tudo, no entanto, é que alguns estavam
morrendo com o uso de Dypraxa. Alguns não: 63.
No
filme, estas pessoas acabaram enterradas clandestinamente
e tiveram estranhamente surrupiados seus documentos e prontuários
médicos. O oficialmente, é como se nunca tivessem existido.
Foram queimadas como o arquivo comprometedor de um remédio
com problemas.
Tessa
havia percebido isto e chegou a pressionar para que mudanças
fossem feitas na formulação de Dypraxa. Só que isto levaria três anos e milhões de dólares.
Nada que a KDH ou a Three Bees estivessem dispostas a encarar, já que Dypraxa prometia ser a nova cura da tuberculose multiresistente, e um produto bilionário para as duas companhias.
Tessa
chegou a enviar um relatório sobre as atrocidades das pesquisas
com o Dypraxa no Quênia ao alto
escalão do governo britânico, mas este gesto só mostrou a
fragilidade de sua luta frente ao poderoso jogo de interesses
que envolvia o apoio da KDH ao governo, a Three
Bees e o suborno às autoridades
quenianas para aceitar as pesquisas. Assim, ficou claro que
havia grande interesse em calar a bela militante, o que ocorreu
em um inacreditavelmente bonito cenário africano.
Quanta
conspiração! A ação, os atores e a fotografia são ótimos,
e este é o forte o filme. Mas Meirelles escorrega na temática
fácil de que, às empresas farmacêuticas, tudo é permitido
nesse campo, em especial na hora de testar novas drogas. Mostra
um mundo completamente sem dono, liberado para favorecer tramóias
entre governantes, empresários e pesquisadores, como se não
houvessem pressões diversas ou organismos que controlem esta
atividade. E nisso Meirelles erra com estilo. Aos que assistem
a este filme, o que é preciso explicar sobre como são feitas
pesquisas de novos medicamentos com seres humanos?
Antes
de tudo, há regras para a brincadeira, e mundiais. Surgiram
de uma harmonização de leis dos países que já faziam pesquisas
há muito tempo, como o Japão, EUA e países da Europa, que
ficaram conhecidas como ICH (International
Conference on
Harmonization), e GCP (Good Clinical Practice),
nas últimas décadas. Atualmente, somente as pesquisas que
seguem estas normas são aceitas para o registro de um produto
farmacêutico por agências como a FDA (EUA), Emea
(Europa), Anmat (Argentina) e Anvisa
(Brasil), e deveriam ser aceitas por qualquer país, se é que
já não o são.
Isso
significa que fazer pesquisa clínica em indivíduos sadios
ou doentes do Quênia, África do Sul, Dinamarca, Brasil ou
EUA, para o lançamento de um grande medicamento, obedece às
mesmas regras, em especial a voluntariedade do ato de participar
de uma pesquisa, a confidencialidade dos participantes e o
processo obrigatório de consentimento livre e esclarecido
para participação.
No
processo de consentimento, o voluntário deve ser o mais informado
possível pelos médicos que estão conduzindo a pesquisa sobre
os potenciais riscos e benefícios de receber uma substância
cujos efeitos, afinal, ainda não são amplamente conhecidos.
O processo correto leva tempo, e de forma alguma o consentimento
de uma pessoa deve estar atrelado à possibilidade de receber
tratamento para sua enfermidade ou não, e a qualquer momento
ela pode retirar seu consentimento por qualquer motivo, sem
que isto signifique perda do seu acesso a outros tratamentos
disponíveis. Ao final, um termo de consentimento contendo
todas estas informações é assinado pelo voluntário, e em alguns
casos por responsáveis legais pela pessoa e por testemunhas.
Além
das normas do ICH/GCP, os países costumam ter leis próprias
sobre pesquisas clínicas (no Brasil, há duas leis federais,
a 8080 de 19/09/1990 e a 8142 de 29/12/1990 além de uma série
de resoluções, sendo as mais importantes a 196/96 (Conep - Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - 8211) e a
240/04 (Anvisa - Agência Nacional
de Vigilância Sanitária), disponíveis nos sites
destas instituições.
Além
da Conep e da Anvisa, outro organismo
que aprova e acompanha pesquisas são os Comitês de Ética das
instituições que fazem as pesquisas, e juntos chegam a demorar
cerca de cinco meses para aprovar que uma pesquisa com novo
medicamento seja conduzida no país. Para um ou mais destes
organismos, os investigadores se comprometem a emitir relatórios
periódicos sobre número de pacientes, eventos adversos e outras
informações relevantes do andamento da pesquisa, pois eles
podem interromper o projeto a qualquer momento, caso entendam
que possua mais riscos que benefícios aos sujeitos.
Tanto
cuidado não surgiu à toa: o final da segunda Guerra Mundial
trouxe à tona atrocidades cometidas contra judeus nos campos
de concentração para fins de “pesquisa”, o que originou a
criação do Código Nuremberg, uma das primeiras listas de normas sobre pesquisas com seres humanos. Em
outro caso alarmante (conhecido como Tuskegee
Syphillis Study), pesquisadores
do serviço público de saúde do estado do Alabama, nos EUA,
acompanharam cerca de 400 homens negros portadores de sífilis
sem oferecer a eles nenhum tipo de tratamento, simplesmente
para “pesquisar” a evolução natural da doença e suas conseqüências.
Casos assim foram críticos para o fortalecimento e aprimoramento
das regras atuais e dos organismos reguladores desta área.
Um
dos erros mais gritantes do filme de Meirelles é apontar que
pesquisas seriam feitas nas pobres “cobaias quenianas” com
medicamentos que serão lançados para “americanos e europeus
ricos”, o que nos leva a pensar que, se “cobaias quenianas”
morreram somente na fase de pesquisa do medicamento, quantos
americanos ricos morreriam na fase de comercialização, em
que centenas de vezes mais pessoas seriam expostas ao medicamento?
Ora, se evoluímos todos dos macacos e até nossas diferenças
genéticas são mínimas, por que John Le
Carré acredita que morrerão mais
humanos da África que da Europa ou Estados Unidos? Que grande
laboratório correria um risco destes, que se fosse não ético
ou moral, seria puramente financeiro?
Infelizmente
um filme de sucesso como este distorce um assunto tão importante
e trata de forma pejorativa pessoas que consciente e voluntariamente
aceitam participar de pesquisas por quererem contribuir para
o avanço do conhecimento que trará novos tratamentos para
pessoas com os mesmos problemas, chamando-os de “cobaias”
(termo condenado pela resolução 196/96).
Não
é que não tenham ocorrido erros no passado, ou que somente
governos e empresas especialmente empenhados com a boa conduta
ética e científica aventurem-se pela atividade delicada da
pesquisa em humanos. Entretanto, trata-se de uma atividade
como tantas outras que buscam um melhor destino para nossas
vidas, em que são necessários educação, autonomia do indivíduo
e vigilância da sociedade. Filmes como O Jardineiro Fiel podem até contribuir para isto de forma inversa,
incitando o debate para a sociedade. De forma alguma devem
ser vistos como o retrato de uma atividade levada tão a sério
como a pesquisa clínica em seres humanos.
-
Fonte: Revista eletrônica Vox Scientiae (NJR-ECA/USP).
- Luciana Mourão Fanti é médica com especialização
em divulgação científica pelo Núcleo
José Reis da ECA/USP e gerente médica do laboratório
Bristol Myers Squibb do Brasil, onde, entre outras atividades,
coordena pesquisas clínicas no País.
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