SAÚDE PÚBLICA
O caramujo africano que
se espalhou pelo Brasil

MAURO CELSO DESTÁCIO

     Jornais e sites noticiosos de fevereiro estamparam com destaque, em suas seções de ciência, a descoberta de uma variedade de espécies desconhecidas ou consideradas extintas numa ilha indonésia, na região da Nova Guiné. “Um novo mundo na Indonésia”, anunciou O Estado de S. Paulo. “Novas espécies povoam ‘Éden’ indonésio”, salientou a Folha de S.Paulo. “Centenas de novas espécies são encontradas na Indonésia”, destacou O Globo, com um pouco mais de moderação. “Porta para o ‘Jardim do Éden’”, revelou com alarde o Jornal do Brasil. “Cientistas encontram ‘mundo perdido’ em ilha da Indonésia”, era a manchete de notícia da Reuters em alguns dos portais brasileiros.
     
Inegavelmente um achado precioso, empreendido por pesquisadores da ONG Conservation International e do Instituto de Ciências da Indonésia, liderados por Bruce Beehler, ornitólogo especializado em pássaros da região. (Dias depois do anúncio, ele esteve no Brasil, visitando as cataratas do Iguaçu.) Com exagero ou não, os jornais deram o destaque merecido. Afinal, trata-se de um acontecimento raro, pois não é todo dia, e em qualquer lugar, que se descobrem diferentes espécies, de rãs a mamíferos, de uma só sacada – embora, é claro, tamanho levantamento demande bastante tempo, coisa que muito poucas vezes é frisada no noticiário sobre ciência, dando aos leitores a falsa impressão de que tais descobertas (palavra um tanto enganosa, diga-se de passagem) são meramente instantâneas. Bem, ao menos cumpriu-se a função de chamar a atenção...
     Atenção que faltou, por sinal, para outro acontecimento extremamente importante – e grave – em terras brasileiras. Não se trata de uma descoberta; ao contrário, não resultou de nenhuma pesquisa científica, mas sim de uma imprudência decorrente da ambição por lucros de pessoas que, em 1988, numa exposição agropecuária no Paraná, incentivaram a criação do caramujo-gigante-africano (Achatina fulica) como uma alternativa mais eficiente, com retorno financeiro mais rápido, ao escargô. E hoje, após descuidos no manejo da espécie, que escapou dos locais onde era criada, tornou-se uma praga. Em janeiro deste ano, por exemplo, moradores e veranistas de Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo, se viram cercados por inúmeros exemplares da exótica espécie, a tal ponto que um dos “passatempos” deste verão no local foi catar os caramujos, com uso de luvas, e matá-los, por afogamento ou incineração.
     O caramujo-gigante-africano se espalhou, nos últimos anos, do Sul à Amazônia, em razão sobretudo da rapidez de reprodução (é hermafrodita e produz até 400 ovos no auge de seu período fértil) e da inexistência de predadores naturais em terras brasileiras (o único conhecido é uma espécie de gavião da África, o qual, se trazido para cá, causaria ainda mais problemas). Tudo isso sem falar, é claro, da irresponsabilidade em nome do ganho financeiro rápido... Além dos desequilíbrios ecológicos de dimensões ainda desconhecidas, o Achatina fulica tem causado danos a inúmeras culturas agrícolas e é vetor de doenças graves para o ser humano, como a angiostrongilose abdominal e a meningite eosinofílica, cujos agentes são vermes hóspedes do caramujo, entre outros animais. Diante de tão impressionante quadro, vem a pergunta: quantos brasileiros já ouviram falar do caramujo-gigante-africano?
    A população brasileira ainda ignora a gravidade da disseminação do Achatina fulica pelo país. Talvez nem mesmo os médicos, ao se depararem com sintomas, em seus pacientes, de dor no abdômen, febre prolongada, vômitos, aumento dos eosinófilos (células que participam do sistema imunológico humano) e até mesmo perfuração intestinal, saibam identificar um quadro de angiostrongilose abdominal. Torna-se imprescindível e urgente alertar os brasileiros sobre o perigo do caramujo-gigante-africano e treinar os profissionais de saúde para lidarem com doenças que, hoje distantes do noticiário e ocultas sob a concha de um pequeno molusco, podem se tornar uma constante e forte dor-de-cabeça para a saúde pública nacional.

- Fonte: Notícias ABRADIC. Artigo publicado originalmente, com algumas modificações, sob o título “O paraíso tropical e os infernos locais”.
- Mauro Celso Destácio, jornalista formado pela ECA/USP, é editor e assessor de imprensa do Núcleo José Reis de Divulgação Científica e da Associação Brasileira de Divulgação Científica, e vice-presidente da OSCIP Scientia Brasilis.

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