PSICOLOGIA
O auto-conhecimento como
prevenção em saúde mental

REGINA PILDUSAS GARTNER

     Todos os dias fazemos escolhas, algumas muito simples e fáceis, outras mais complexas, extremamente difíceis. Todas, porém, acarretam conseqüências, sejam de ordem física, orgânica, financeira, material ou emocional, significantes ou insignificantes, em pequenas ou grandes dimensões; algumas delas, para o resto de nossas vidas.
     A necessidade e a empolgação do momento, associados a fatores externos (aparência, beleza e outros) e internos (sentimentos de vaidade, insegurança pessoal, carência afetiva, baixa auto-estima, necessidade de aceitação social e outros), podem dominar de tal forma nossas mentes que, muitas vezes, acabamos por tomar decisões precipitadas.
     Uma escolha simples, como por exemplo, a compra de um par de sapatos, se realizada erroneamente, pode nos trazer desconforto nos pés, bolhas e calosidades. Isto exigirá alguns cuidados, talvez algum tratamento a curto ou médio prazo, além de ter, inevitavelmente, de nos desfazer dos belos pares de sapatos ou aceitar a idéia de que aquele produto tão caro, pertencente a uma “grife” tão conceituada no mercado, ou mesmo a preço de ocasião, uma promoção imperdível, não nos valeu a pena, pois não se adequou aos nossos pés (às vezes apenas ao nosso bolso).
     Esta simples experiência nos possibilita a oportunidade de refletir que, em um outro momento, antes de realizar uma próxima compra, devemos “testar” mais o produto, prestarmos mais atenção as nossas sensações, ao caminhar pela loja com os pretendidos sapatos, sem nos deixar levar predominantemente pelo visual, pelo preço, pelas facilidades de pagamento oferecidas e/ou pela necessidade de ter sapatos novos, para exibi-los em determinada ocasião. Não devemos permitir que a nossa impulsividade domine a nossa decisão final.
     Bem, mas são apenas sapatos e as conseqüências, embora temporariamente dolorosas, acarretam alguns prejuízos financeiros, algumas cicatrizes nos pés, não são tão graves e não nos impedem de caminhar e prosseguir nossa jornada pela vida.
     No entanto, e quando se tratam de decisões mais complexas, tais como: a escolha de uma profissão, de um emprego, uma mudança de cidade, de um país, relacionamentos afetivos, a escolha de um(a) parceiro(a), a decisão de casar, ter filhos, quantos, em que momentos, o tipo de educação que se pretende proporcionar a essas crianças, a decisão de uma separação conjugal, ou de se desmanchar uma sociedade?
     Que fatores estão implicados nesses casos ou em cada um deles? E que aspectos sentimos que se mobilizam em nosso interior, ao nos vermos às voltas com esses momentos, onde temos de fazer escolhas e tomar decisões muito mais complexas do que comprar um simples par de sapatos?
     Nesses momentos, é de fundamental importância que cada uma dessas questões seja devidamente examinada, com rigor e cautela, fazendo-se em um primeiro momento, uma análise dos nossos fatores internos, peculiares a cada um de nós, das nossas características de personalidade. Em um segundo momento, realizar uma análise da possibilidade de estabelecermos uma interação favorável ou satisfatória da nossa personalidade com os fatores externos (características ambientais e de personalidade de outras pessoas, com quem pretendemos conviver, afetiva ou profissionalmente).
     É claro que, durante um processo seletivo para a concorrência a uma vaga de emprego, torna-se muitas vezes inviável ao candidato conhecer o grupo de trabalho, mas vale a pena prestar atenção aos sentimentos que afloram durante uma entrevista e/ou uma dinâmica de grupo, sejam os relacionados ao ambiente físico como ao humano, por exemplo: no contato com o(s) entrevistador(es), observar se fica à vontade, se se sente oprimido, censurado, sonolento, motivado, estimulado, ansioso, temeroso, assustado, inibido, seguro, descontraído.
     Da mesma forma, durante um namoro, não é o tempo durante o qual o casal vem se relacionando e tampouco a idade do homem e/ou da mulher ou mesmo o fato de ambos já se encontrarem em uma situação profissional e financeira estável que devem determinar o momento de se casarem. Essas são apenas condições favorecedoras. Fatores fundamentais para uma escolha mais consistente e acertada constituem-se do amadurecimento emocional de cada um, do próprio relacionamento, os sentimentos recíprocos, associados ao conhecimento verdadeiro e profundo das semelhanças e diferenças individuais.
     Para isso, é muito importante que cada um conheça o suficiente a si mesmo, para reconhecer no outro as semelhanças e as diferenças. A partir do auto-conhecimento e do conhecimento do outro, um casal dispõe de mais elementos para tomar uma decisão mais sólida, ciente daquilo que aceita ou não no outro, do que considera que vale a pena tolerar, em que precisa ceder para possibilitar um convívio mais satisfatório e quais são os seus limites e o do outro nessas concessões. É importante inclusive avaliar as possíveis conseqüências da união, considerando as diferenças individuais, se não há desequilíbrio nas concessões, abusos e/ou anulação da própria identidade.
     Muitas vezes, uma diferença de ritmo biológico ou de nível intelectual podem ser fatores que apresentem significativas interferências no relacionamento, sendo muito importante a sua consideração antes de se decidir um casamento. É preciso avaliar de que forma esses fatores irão interferir e que peso terão no dia-a-dia.
     Para o auto-conhecimento e o conhecimento do outro, vale a pena pesquisar observar, aprender a nomear e esclarecer os vários sentimentos e emoções presentes em vários contextos do relacionamento, os quais servem de pequenas amostras de situações futuras que poderão vir a se repetir, bem como prestar atenção e valorizar a própria intuição, a qual pode estar sinalizando algo ainda obscuro, registrado apenas nas sensações e não expresso em palavras, por se tratar de manifestações ainda inconscientes.
     Decisões precipitadas no campo do relacionamento afetivo traumatizam, trazem conseqüências irreparáveis e, muitas vezes, superposições de outras decisões e conseqüências que vão constituindo uma infindável bola de neve, a crescente a cada dia e abrangente no seu envolvimento. Inicialmente havia apenas duas pessoas, as quais se uniram e formaram um casal; depois vieram os filhos, os cuidadores dos filhos, os familiares, a escola e assim por diante.
     Questões negligenciadas e mal resolvidas entre o casal favorecem situações desgastantes, instalações de círculos viciosos no relacionamento, instigando a precariedade da saúde mental não apenas do casal, mas também das crianças, candidatas a se tornarem adultos frustrados e insatisfeitos, vivendo uma vida infeliz, desorientados em suas escolhas e incorrendo no risco de repetirem o modelo dos pais.

- Regina Pildusas Gartner é mestre e doutora em Psicologia Clínica pela USP.

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