ENDOCRINOLOGIA
Considerações
sobre a obesidade
JANE
FELDMAN
Definir
obesidade é, muitas vezes, uma tarefa difícil.
Existem situações em que qualquer um olha para
um indivíduo e afirma que ele é obeso. No entanto,
existem casos onde tal afirmação é extremamente
duvidosa. Nesses casos pode-se lançar mão de
exames mais sofisticados, como a bio-impedanciometria e a
densidade corporal para definir melhor a percentagem de tecido
adiposo do indivíduo. Pessoas bonitas, de acordo com
o modelo de beleza aceito por nossa sociedade, ditado principalmente
pelos meios de comunicação, são aquelas
altas e magras.
Cleópatra
e Mona Lisa, entre outras, aceitas em sua época como
modelos de beleza eram, no mínimo, cheinhas. Mas, estética
à parte, o grande problema é que a obesidade
aumenta o risco para uma série de patologias, como
doenças articulares, distúrbios lipídicos,
hipertensão arterial, diabetes e até alguns
cânceres. Distúrbios metabólicos, por
sua vez, aumentam os riscos de mortalidade por doenças
cardiovasculares, principalmente. Esses dados são tão
significativos que, em muitos países, o custo do seguro
de vida é maior para pessoas obesas.
Mas
o que faz com que algumas pessoas fiquem obesas? Certamente
existe uma interação entre fatores genéticos,
metabólicos, psicológicos e culturais. Abordar
o tema genética é complicado. Não resta
dúvida de que existem famílias de grandes obesos
e nesses casos fica difícil descartar erro alimentar
coletivo, que é importante, principalmente nos primeiros
anos de vida. Gêmeos criados separadamente e que, nem
sabiam da existência do outro, costumam apresentar o
mesmo padrão de distribuição de gordura.
A
distribuição de gordura costuma obedecer a um
padrão familiar, em algumas famílias a gordura
pode se concentrar mais em quadris e membros inferiores, enquanto
em outras pode ter uma distribuição mais difusa.
A obesidade abdominal é a mais perigosa, pois pode
levar ao diabetes e doença cardio-vascular. Estudos
em animais demonstram a presença de uma obesidade genética,
como é o caso dos ratos Ob./Ob. Em humanos, começam
a sair trabalhos isolando genes associados à obesidade
humana, como é o caso da leptina.
A
maioria dos casos de obesidade humana não apresenta
alterações hormonais. No entanto, muitos distúrbios
endócrinos, como hipotireoidismo e Síndrome
de Cushing, costumam associar-se à obesidade. É
sempre importante pesquisar a sua presença, porque
requerem tratamento específico. Fatores psicológicos
são de grande importância tanto na etiologia
como no tratamento da obesidade.
A
hiperalimentação pode representar um distúrbio
da dinâmica familiar. Pais podem super alimentar seus
filhos, como uma compensação para culpas ou
como uma manifestação distorcida de amor. A
hiperfagia (excesso de fome) pode ocorrer como uma resposta
a situações de estresse, seja no trabalho ou
no lar. Podendo servir como uma proteção em
situações de difícil interação
social, conflitos sexuais e exposição à
possibilidade de falência em relações
interpessoais.
Pessoas
magras em geral comem quando sentem fome. Já as obesas
respondem a uma série de estímulos como horário,
odores, etc. Um outro fator que gostaríamos de destacar
é a visão errônea, mas que ainda prevalece
em muitos ambientes, de que obesidade, principalmente em crianças,
é sinal de saúde e prosperidade.
Um
distúrbio alimentar mais grave é a bulimia,
que já é uma alteração mais séria
e requer tratamento especializado. Na bulimia a pessoa tem
acessos onde ingere quantidades espantosas de alimentos e
em seguida provoca vômito.
Nossa
cultura, altamente consumista, influencia a ingestão
excessiva de vários alimentos supérfluos, como
balas, bolachas, salgadinhos, etc. Em geral agraciamos nossas
visitas com jantares quase suntuosos ou pelo menos um cafezinho
com bolo. Muitas vezes, até por necessidade, pessoas
alimentam-se em fast foods, cujos alimentos são
excessivamente calóricos. Clientes de firmas importantes
são levados a tratar de negócios em restaurantes
finos e assim por diante.
O
paciente obeso deve, antes de iniciar qualquer tratamento
sério, passar por um exame clínico completo,
eventualmente complementado por alguns exames laboratoriais,
para que possa assegurar-se de não ser portador de
doenças que se acompanhem de obesidade. O tratamento
da obesidade simples baseia-se no tripé dieta, exercício
físico e estabilidade emocional.
Um
dos grandes problemas de quem faz regime é que a maioria
das dietas são restritas e enjoativas. Após
alguns meses de tratamento, muitos indivíduos ficam
desmotivados, cansados de suas dietas e acabam cedendo às
pressões psicológicas e sociais para que comam
mais, colocando a perder todo o trabalho feito até
então. No entanto, alimentos pobres em calorias também
podem ser saborosos. Existem no mercado vários livros
contendo receitas de baixas calorias, que ajudam a diminuir
o sacrifício desse período de regime.
Essas
receitas, no entanto, não são isentas de calorias.
Elas têm menos calorias do que os alimentos que as pessoas
da nossa sociedade consomem no dia a dia e portanto devem
ser ingeridas com moderação.
Finalmente,
gostaríamos de tecer alguns comentários sobre
o tratamento medicamentoso da obesidade. Evidentemente, se
após passar por uma consulta, o médico concluir
que o paciente padece de uma obesidade secundária a
um distúrbio hormonal, ele certamente indicará
o tratamento adequado a essa situação. Por outro
lado, se não for constatado um distúrbio, pode-se
fazer uso de medicamentos anorexígenos, que inibem
o apetite, de medicamentos que estimulam o centro da saciedade,
cujo representante mais conhecido é a sibutramina ou
ainda de medicamentos que inibem a absorção
de gordura pelo intestino, como o Orlistat. Este ano deve
ser lançado um medicamento que promete ser inovador,
que age via receptores canabinóides.
Também
tem sido usada a cirurgia bariátrica, que limita o
volume do estômago e impede que a pessoa coma muito.
É indicada em grandes obesos. Nesses casos sempre se
deve contrapor os riscos da obesidade contra os riscos da
própria cirurgia. Existem muitas controvérsias
sobre o uso desses tratamentos. Há aqueles que são
frontalmente contrários ao uso de medicamentos e aqueles
que preconizam a sua utilização pela vida afora,
em grandes obesos. Acho que aqui, como tudo na vida, deve
imperar o bom senso. Esses medicamentos às vezes apresentam
efeitos colaterais que, no entanto, podem não ser significativos
em alguns pacientes que poderiam se beneficiar muito de seu
uso. Sua indicação deve ser avaliada individualmente
frente a cada caso.
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Jane Feldman é endocrinologista.
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