MEDICAMENTOS
Droga
para tratar colesterol
pode reduzir a morte de neurônios
Testada
em animais, a lovastatina, quando administrada na fase aguda
das crises, foi capaz de proteger e evitar a morte neuronal
no hipocampo, área do cérebro responsável
não apenas pelas emoções, aprendizado
e memória, mas também pela fabricação
de novos neurônios e células nervosas. A pesquisa
contou com participação de pesquisadores da
Unifesp e da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
Utilizada
há vários anos para diminuir os níveis
de colesterol no sangue, a lovastatina, como é conhecida
a droga, renova as esperanças das pessoas que sofrem
de epilepsia. Principalmente, a do lobo temporal, tipo mais
comum e também o mais resistente aos medicamentos antiepiléticos.
A
análise do tecido cerebral de ratos de laboratório
mostrou que, no grupo de animais que recebeu a droga durante
a crise epilética e 24 horas depois, houve redução
de até 55% da morte neuronal no hipocampo, quando comparado
aos animais que tiveram as crises e não receberam o
medicamento.
De
acordo com Fúlvio Alexandre Scorza, professor adjunto
da disciplina de Neurologia Experimental da Unifesp e idealizador
do projeto, que há três anos investiga a ação
da lovastatina em modelos animais de epilepsia, o próximo
passo é descobrir qual é o mecanismo de proteção
da droga no cérebro contra as agressões provocadas
pelas crises. “Há duas hipóteses nas quais
estamos trabalhando. A primeira é de que a droga tenha
propriedades antioxidantes e, a segunda, que atue como antiinflamatório,
já que a lesão neuronal durante as crises epiléticas
é acompanhada de processos inflamatórios”.
Os
resultados são promissores, mas o pesquisador explica
que levará alguns anos até que a droga possa
ser indicada para tratamento da epilepsia. “Apesar de
os modelos de crises epiléticas que desencadeamos em
ratos reproduzirem de forma fidedigna as dos seres humanos,
ainda é preciso realizar várias etapas de pesquisa,
inclusive a clínica, para confirmar os benefícios
do medicamento nessas pessoas”, alerta.
O
estudo, que foi tema da dissertação de mestrado
de Pauline Rangel na UMC, sob a orientação de
Fúlvio Scorza, foi publicado na revista indexada Arquivos
Brasileiros de Neuropsiquiatria e apresentado em dois
eventos internacionais: no 26º Congresso Internacional
de Epilepsia, realizado em setembro de 2005 na França;
e, em dezembro do mesmo ano no Congresso da Sociedade Americana
de Epilepsia, nos EUA.
Epilepsia
atinge 2% dos brasileiros
Ainda
confundida por alguns com casos de “possessões
demoníacas” ou de loucura e cercada pelo estigma
e falta de informação, a epilepsia atinge cerca
de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Destas, 35
milhões vivem nos países em desenvolvimento
e sequer têm acesso a um tratamento apropriado, de acordo
com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Desencadeadas
por impulsos nervosos anormais e temporários no cérebro,
as crises epiléticas provocam convulsões, abalos
musculares, desmaios ou interrupção da fala
e da atividade.
Nem
sempre é possível saber a causa concreta da
epilepsia. As mais conhecidas são lesões, traumas
antes ou durante o parto, abuso de álcool ou de drogas
e infecções causadas por meningite. Entretanto,
a neurocisticercose – presença de ovos de Taenia
solium (solitária) no cérebro, pode ser
uma das principais responsáveis pelo problema no Brasil,
que afeta cerca de 2% da população, já
que o saneamento básico ainda não está
disponível em todos os municípios do país.
Scorza
explica que a epilepsia é uma doença que apresenta
bom prognóstico. De acordo com ele, em cerca de 70%
dos casos as pessoas se livram das crises. “O restante,
continuará a apresentar as crises, sem remissão,
mesmo seguindo adequadamente o tratamento com anticonvulsivantes
pelo resto da vida”, afirma.
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