COMPORTAMENTO
Jacob Pinheiro Goldberg:
lições do caso Suzane

HÉLIO DANIEL CORDEIRO


Jacob Pinheiro Goldberg

     A partir do caso do assassinato dos próprios pais em São Paulo, sob a orientação da estudante de Direito, Suzane Louise von Richthofen, MEDICINA E SAÚDE entrevistou o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg (autor, entre outros, do livro Psicologia da Agressividade), em seu consultório em Higienópolis, São Paulo, para traçar uma análise da juventude atual e o conflito de gerações.
     É possível alguém matar por amor?
     Não existe o assassinato por amor. Conforme defini no meu livro Monólogo a Dois, a mais profunda noção de amor que existe foi estabelecida pelo filósofo Martin Buber. Para Buber a relação de amor não pede e nem solicita nada da outra pessoa. Você parte de um conceito altruísta, o oposto do egoísmo. O altruísta quer o bem da pessoa amada e não transforma o outro em objeto. No momento em que você usa a outra pessoa, isso vira uma relação de posse, de uso e de gozo.
     O que faz uma filha como a Suzane von Richthofen (mas poderia ser outra, como aliás tem ocorrido), desejar e matar os próprios pais, que, até onde pudemos ver, a amavam?
     Hoje fica claro nos estudos psicológicos o que é denominado de “conflito geracional”. Cada geração tem condutas e valores diferentes da geração dos pais. Tanto é que se fala na psicologia da “morte simbólica dos pais”. Em determinado instante da adolescência o filho (ou a filha) mata a entidade paterna ou materna simbolicamente e transfere a relação que tinha com os pais para um grande amigo ou amiga.
     Esta transformação é muito positiva, porque o adolescente precisa contestar para ele estabelecer o seu espaço. Agora esta contestação não deve ser feita com agressividade e muito menos com perversidade.


Suzane Louise von Richthofen

     Como os pais podem conciliar o desejo entre dar a liberdade que o filho precisa para se desenvolver enquanto pessoa e evitar más companhias e o contato com drogas e a criminalidade?
     Toda a liberdade tem uma dose de aventura. Não existe a liberdade sem a ultrapassagem de certas regras. O grande trabalho dos pais quanto aos filhos é proteger e zelar, mas principalmente educá-los, preparando-os para a arte da conquista da vida em sociedade. Viver em sociedade é aprender a interagir com os perigos hoje muito freqüentes ligados à violência em geral e à deterioração da civilização.
     A sociedade moderna está cada dia mais complexa. Como o senhor vê a juventude atual?
     Infelizmente a juventude atual está de baixo de um efeito que a gente pode chamar de “elemento deboche”. A música popular faz apelo à violência, à estupidez, à falta de cultura, ao racismo e à selvageria.
     Um dos ídolos da música pop é o Kurt Cobain, que acabou se suicidando sob o uso de drogas. A juventude hoje substitui os grandes valores espirituais e culturais por valores de sucesso a qualquer preço e de consumismo. Isso em todos os campos. O que importa é o ser e o acontecer, principalmente em função dos outros, da opinião pública e do olhar alheio.
     Os anos 60 marcaram época com ícones culturais como os Beatles, Marcuse, Sartre, Cohn-Bedit... A juventude de então era revoltada em torno de causas políticas e ideológicas que tentavam mudar o mundo para melhor. Qual a diferença daquela geração para a juventude de nossos dias?
     A grande diferença entre a juventude dos anos 60 e a juventude de hoje é a perda dos sonhos. Uma frase terrível usada nos últimos anos é “o que importa é ser objetivo.” Na realidade, o que importa é ser subjetivo. O que importa não é o concreto, mas o abstrato, aquilo que nós fazemos com as nossas esperanças, com a nossa fé, intenções e convicções. O ato e o fato são muito menos importantes de que o desejo e o sonho.
     Qual o papel da mídia na formação da cabeça das novas gerações, no que tange à violência?
     A mídia, principalmente a televisão e a Internet se transformaram em um repositório de péssimas informações daquilo que existe de mais insensível nas condições humanas, da pedofilia à apologia do homicídio, com requinte de mau gosto. Existe uma relação entre estética e ética que tem de prevalecer. Infelizmente nós vivemos em um mundo onde a desconsideração pelo outro indivíduo não tem mais qualquer limite de natureza ética ou estética.

- Hélio Daniel Cordeiro é editor da revista MEDICINA E SAÚDE.

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