REPORTAGEM
Semiologia
médica perde
campo para tecnologias
GERMANA
BARATA
Descrever
a dor é um ato que precisa ser interpretado primeiro por quem
a sente e, depois, pelo profissional de saúde. A experiência
e a descrição da dor são extremamente particulares e podem
variar de acordo com as circunstâncias, as condições psicológicas,
sociais, econômicas e culturais do paciente. A análise desses
elementos durante a entrevista médica é o primeiro e mais
importante passo para o diagnóstico e para a definição de
exames complementares e tratamento a ser indicado. No entanto,
a entrevista com o paciente tem sido relegada, em troca de
uma confiança excessiva na enorme gama de exames e tecnologia
disponíveis.
Além do prejuízo
à relação médico-paciente, a prática tem elevado os custos
de saúde. A entrevista inicia-se pela identificação do paciente,
descrição de sua história clínica e do motivo que o levou
a procurar cuidados médicos. O processo segue com uma série
de questões específicas que o médico realiza para elucidar
pontos importantes: descrição do início do sintoma e a sua
cronologia, localização e caracterização dos sintomas, intensidade,
fatores precipitantes, fatores agravantes, fatores de alívio.
O médico indaga também se um problema similar já ocorreu previamente
e como foi resolvido.
“O uso efetivo da história do paciente e do exame físico são
responsáveis por 70 a 90% do diagnóstico. Os exames complementares
apenas servem para confirmar e dar alguma informação adicional”,
enfatiza Aldo Peixoto, professor de medicina interna da Universidade
de Yale (EUA). Segundo o especialista, os recursos de tecnologia
são desastrosos quando empregados para substituir a anamnese
(entrevista) e o exame físico.
Peixoto participa
de um movimento ainda incipiente na medicina, mas que tem
recebido novas adesões, em busca de uma revitalização da semiologia
médica. “A semiologia pura, também chamada semiologia ‘desarmada’,
vem sofrendo um processo de desprestígio em algumas escolas,
em detrimento das disciplinas pautadas nas especialidades
médicas”, lamenta Rosemeri Maurici da Silva, professora do
curso de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina
(Unisul) e uma das autoras do livro Semiologia
para o Estudante de Medicina (Unisul, 2005).
Um dos reflexos
dessa desvalorização pode ser presenciado nas consultas médicas,
nas quais as entrevistas duram em média 15 minutos. Celmo
Celeno Porto, professor da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de Goiás e autor do livro Semiologia Médica, acredita que esse tempo
jamais deveria ser inferior a 20 minutos, podendo chegar a
duas horas em casos mais complexos. Seja pela má remuneração
ou pela negligência do profissional, isso não tem sido feito,
o que leva ao aumento das chances de erro no diagnóstico e
de pedidos desnecessários de exames.
Em 2000, a média
de exames realizados para cada cem consultas no sistema privado
carioca era de 120, conforme afirma Arlindo de Almeida, presidente
da Associação Brasileira das Empresas de Medicina de Grupo
(Abramge), ao jornal O Globo
(9/5/2005). Cinco anos depois, esse número pulou para 270,
sendo que 30% sequer são retirados dos laboratórios. Segundo
o Ministério da Saúde, o número de exames laboratoriais recomendado
por cada 100 consultas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é
de 50.
Outro reflexo
da negligência com a relação médico-paciente é a insatisfação
dos pacientes com a medicina tradicional que, em resposta,
migram para a chamada medicina alternativa, a exemplo da homeopatia,
isto porque essas terapias valorizam a anamnese e o quadro
geral do paciente, incluindo o psicológico. Amarylis Zaldúa
Triana, em artigo no periódico Cultura
Homeopática, de 2004, sugere que a semiologia homeopática
pode enriquecer o olhar semiológico biomédico. A precisão
de um “retratista”, defendida por Christian Samuel Hahnemann
(1755-1843), idealizador da homeopatia, é constituída a partir
do raro, peculiar e característico para se alcançar a individualização
dos sintomas.
Triana lembra
que a entrevista médica atenta não apenas para a descrição
dos sintomas pelo paciente, mas também para a comunicação
não-verbal (ou corporal, como expressões faciais, gestuais,
etc), paralingüística (como a informação é transmitida) e
as representações sociais que surgem e que fazem parte do
senso-comum – conceitos emprestados da lingüística. “Acredito
que outras semiologias, outras racionalidades médicas, como
também outros olhares terapêuticos têm muito a contribuir
na formação dos médicos”, diz a especialista.
Obstáculos
Do
lado oposto da semiologia, encontram-se sistemas computacionais
que têm auxiliado o diagnóstico médico, colocando à disposição
do profissional da saúde sintomas que selecionados levam a
alguns diagnósticos. Um exemplo é o Lepidus desenvolvido entre
1996 e 2000 no Laboratório de Sistemas Neurais (SIsNE) do
Departamento de Física e Matemática da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP, que armazena cerca
de 1130 doenças e 400 sinais e sintomas.
No
sistema o médico insere os sintomas descritos pelo paciente
e recebe como resposta uma lista de possíveis doenças, das
mais prováveis às menos prováveis. Peixoto acredita que esses
programas facilitam a decisão dos profissionais de saúde e,
portanto, melhoram sua relação com o paciente e, por conseguinte,
a cura fica mais fácil de ser alcançada. “Embora haja entusiasmo
e o recurso seja bem-vindo, a interação entre paciente e médico
não é somente um encontro científico onde uma queixa vai ser
codificada em um programa de computador”, lembra Roberto Henrique
Heinisch, do Departamento de Clínica Médica da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC).
De
acordo com o especialista, alguns pacientes têm dificuldades
para expressar suas necessidades e os médicos, para codificá-las
e, portanto, “as incertezas e os imprevistos deste encontro
muitas vezes não estão previstos nas redes neurais, algoritmos
e linguagens dos programas de computador utilizados”.
Uma dessas incertezas que se coloca é a descrição popular
de sintomas, que podem ser desconhecidos dos médicos e mais
ainda dos softwares. Avexame, rebuliço na dona do corpo, sapituca e arrocho (veja
significados no final do texto), são alguns termos populares
que descrevem sintomas. Alguns deles são agrupados em glossários
para facilitar a compreensão médica. Por outro lado, os especialistas
de saúde devem estar atentos às informações e demandas que
surgem frente ao enorme fluxo de informação a que a população
está exposta.
Dentre
os meios de comunicação, a internet permite uma busca selecionada,
muda a relação com a doença, suas representações e descrições,
tornando os pacientes menos passivos em relação aos profissionais
da saúde. Segundo Celmo Porto, na segunda-feira a demanda
dos consultórios médicos varia de acordo com o que disser
o Fantástico (programa exibido pela Rede
Globo) no domingo à noite, referindo-se aos quadros apresentados
por Dráuzio Varella sobre problemas de saúde que acometem
grande parte da população (entre eles obesidade, tabagismo,
enfarte e gravidez). Porto acredita que a informação obriga
os médicos a ficarem permanentemente atualizados para que
possam se posicionar quando o paciente colocar suas questões.
Amarylis Triana
defende a formação de médicos que possam refletir sobre o
alcance do instrumento semiológico, diagnóstico e terapêutico.
“E também recobrar o que é digno de ser recobrado, historicamente,
no interior da sua própria racionalidade, aquele ‘olhar clínico’,
que dava importância ao signo semiológico, mas ampliado à
luz dos conceitos do signo atuais”.
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Fonte: Revista eletrônica ComCiência.
- Germana Barara é jornalista.
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