SIGMUND FREUD
O filho ilustre de Freiberg faz 150 anos
HÉLIO DANIEL CORDEIRO


Sigmund Freud

     Há 150 anos nascia em Freiberg (atual cidade tcheca de Pribor), Sigmund Freud. Um dos nomes mais importantes da cultura mundial, o trabalho deste médico judeu, criador da psicanálise, revolucionou a forma como entendemos o ser humano.
     Freud era o mais velho de oito filhos do segundo casamento de Jakob Freud, modesto comerciante. Amália, sua mãe, era 20 anos mais jovem que o marido. Aos três anos de idade, mudou-se com a família para a capital austríaca.
    Ingressou na Universidade de Viena em 1873 para estudar Medicina. Como aluno, iniciou um trabalho de pesquisa sobre o sistema nervoso central, orientado por Ernst von Brücke (1876) e formou-se médico em 1881. Trabalhou na Clínica Psiquiátrica de Theodor Meynert (1882-83). Com uma bolsa de estudos foi para Paris em 1886, onde conheceu o trabalho do médico Jean-Martin Charcot, que usava a hipnose na investigação da histeria. De volta a Viena, aprendeu com Josef Breuer o valor da catarse (a purgação de um sintoma através da fala).
     Em 1895 Freud e Breuer publicaram o livro Estudos sobre a Histeria, lançando as bases da teoria psicanalítica. Pela primeira vez ouvia-se falar em inconsciente e emoções reprimidas. A partir daí, abria-se uma nova área de estudos e reflexões sobre a mente humana. Em pouco tempo Freud abandonou a hipnose e rompeu com Breuer. Desenvolveu sua teoria psicanalítica e publicou A Interpretação dos Sonhos (1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901) e Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905).
     Ao todo, Freud escreveu 23 volumes e 20 mil cartas. Passadas várias décadas desde sua morte, ocorrida em 23 de setembro de 1939, em Londres (onde se refugiou do nazismo), a psicanálise tornou-se referência de primeira importância na cultura de todo Ocidente.

     Novas escolas
     Recém criada, a psicanálise teve sua primeira ruptura já em 1913 quando o suíço Carl Gustav Jung afastou-se de Freud e criou seu próprio método. Atualmente, as principais escolas psicanalíticas são:
     Escola Junguiana. Baseada no trabalho de Carl Gustav Jung (1875-1961), que criou o conceito de inconsciente coletivo, acúmulo das experiências milenares da humanidade. Sua principal base é a análise do conteúdo dos sonhos.
     Psicologia do Ego. Escola estadunidense. Desenvolve idéias sobre a importância da personalidade (ego) na estrutura psíquica. A psicologia do ego considera como objetivo da terapia analítica a adaptação do ego à realidade. Busca adaptar os conflitos humanos às normas sociais. Principais expoentes: Anna Freud (1895-1982) e Heinz Hartmann (1894-1970).
     Escola Francesa. Tem muitas facções, entre elas a escola clássica e a escola lacaniana, desenvolvida por Jacques Lacan (1901-1981). Para ele, o inconsciente torna-se uma estrutura apreensível pelas palavras.
     Escola Inglesa. Parte da relação entre o sujeito e o objeto (a relação do ego com outras pessoas), não só do ponto de vista externo, mas também no interior do psiquismo. Valoriza os objetos internos. Principais expoentes: Melanie Klein (1882-1960) e Wilfred Bion (1897-1979).
     Escola Intermediária Inglesa. Independente da anterior. Valoriza os objetos externos, como a presença da mãe. Não acredita no instinto de morte (impulso que leva o ser humano ao repouso e à abolição das tensões) proposto por Freud. Seu principal representante é Donald Winnicott (1896-1971).
     Psicologia do Self. Estuda o desenvolvimento do narcisismo e das doenças associadas. Seu principal expoente é Heinz Kohut.
     Escola Reichiana. Criada por Wilhelm Reich (1897-1957). Atribui as neuroses a distúrbios da genitalidade, sobre os quais o orgasmo possui uma virtude curativa e preventiva.

     O legado
     Podemos dizer muita coisa sobre o legado cultural de Freud, talvez a mais unânime entre os intelectuais e o público em geral é ele ter deixado uma herança original de vanguarda e, ao mesmo tempo, polêmica. Isso ficou evidente acompanhando a avalanche de artigos, ensaios, reportagens e conferências que se realizaram em torno das idéias do doutor de Viena quando se comemorou os 150 anos de seu nascimento.
     Vejamos uma amostra disso:
     “Um rápido olhar pelo que marcou a literatura e as artes plásticas no século XX já elimina, porém, qualquer tentativa de desqualificar o legado deixado por Freud. Descoberto pelos surrealistas - que se alimentaram livremente do inconsciente - suas teorias impulsionaram a produção de escritores como Thomas Mann, Alfred Döblin ou Robert Musil, entre muitos, muitos outros.
     “Alguns defendem que não há praticamente nenhum autor significativo no decorrer do século XX que tenha ignorado as teorias de Freud. A literatura moderna teria tido certamente outro rosto sem a influência do pensamento freudiano. E a forma de se posicionar frente aos problemas de identidade do sujeito teria tido outros contornos, sem os fundamentos criados pela psicanálise e a referência plural que esta se tornou.”1
                                                                                               *
     “O homem que nasceu dia 6 de maio de 1856 em Freiberg, pequena cidade da Morávia no antigo Império Austro-Húngaro, não era nada modesto. Sabia de sua importância e chegou a comparar-se a Copérnico e a Darwin. Como eles, Freud julgava ter infligido ao ser humano a terceira 'ferida narcísica' da sua história. Copérnico havia provado que a Terra não era o centro do sistema solar.
     “Darwin mostrou que o filho de Deus não passava de um acidente feliz de mutações genéticas aleatórias. Num século cientificista, Freud atingiu o homem naquilo que tinha de mais caro - a razão, mostrando que ele era presa de pulsões e desejos inconfessáveis, fazia coisas sem motivo aparente e vivia não sob o império da inteligência, mas de algo que o ultrapassava, o seu inconsciente.”2
                                                                                               *
     “Entre outras preocupações, Freud retomou a discussão da natureza do sexo feminino, abrindo para a então nova ciência do inconsciente, possibilidades ainda inexploradas. Tentou então desvendar a feminilidade, estudar a sua constituição a partir da estrutura edipiana, que constitui uma das matrizes da psicanálise.”3
                                                                                               *
     “O que permanece na obra de Freud são basicamente duas coisas. A descoberta do inconsciente e a possibilidade de ter acesso a ele. O inconsciente era apenas pressentido. Desde a Bíblia, desde os gregos, a humanidade sabia que havia coisas sobre as quais nunca se soube nada. A novidade maior é ter uma forma de acesso e de intervenção nesse inconsciente. Portanto, o método analítico permanece e continuará para sempre a exercer essa função individual e única. Pois é uma forma geral de entrar em contato com o inconsciente, mas colorida pelas individualidades de cada um.
     “Outras descobertas de Freud, como o complexo de Édipo, a sexualidade infantil e a importância da sexualidade na vida das pessoas também ficarão para sempre. Como disse certa vez o filósofo Merleau-Ponty, que a substância de Aristóteles, o cogito ou o pensamento de Descartes - e, por minha conta, a mais valia de Marx, o ressentimento de Nietzsche - são noções ou conceitos sem os quais não se pensa mais. O que é essencial em Freud, o cerne, o núcleo, é o Édipo, a sexualidade infantil, as defesas, as pulsões, a importância da sexualidade na vida das pessoas. São noções desses mesmos graus. Não dá mais para pensar sem isso.”4

Notas:
1)      Soraia Vilela: “O que sobrou de Freud”. - http://www.dw-world.de/dw/ - 2005.
2)      Luiz Zanin Oricchio: “Antes dele, só Copérnico e Darwin”. O Estado de S. Paulo (7/maio/2006).
3)      Vanessa Grandra Dutra Martins: “Freud e mulher” Diário Catarinense (06/maio/2006).
4)      Renato Mezan, citado por Márcia Cezimbra: “Não se pode pensar sem Freud”. - http://noticias.cardiol.br/ - 2005.

- Hélio Daniel Cordeiro é editor da revista MEDICINA E SAÚDE.

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