CINEMA
As
chaves da integração
LUCIANA
MOURÃO FANTI
Não
resta dúvida, este é um ano especial. Ou melhor,
de pessoas especiais. Paolo é uma delas - aos 15 anos,
parece ter a maturidade e compaixão suficientes para
ensinar ao pai o quanto é possível perseverar
e até vencer em alguns instantes, apesar de grandes
dificuldades. Seu humor é sutil porém perspicaz,
talvez uma recompensa por anos de observação
do mundo que o rodeia, ou um dom inato que sua doença
cerebral não ceifou.
Paolo
é o personagem de Andrea Rossi no comovente filme As
Chaves de Casa, que esteve em cartaz em São Paulo
recentemente. O longa metragem dirigido pelo italiano Gianni
Amelio não deixa claro qual é o mal específico
do qual Paolo padece, mas este não seria mesmo seu
objetivo: ao invés de focar em aspectos médicos,
trata do reencontro entre pai e filho, separados há
15 anos, quando o garoto nasceu.
A
data foi trágica: a mãe morreu no parto e Paolo
foi anunciado como sendo uma criança defeituosa. O
pai talvez não tenha suportado tanto e desapareceu,
deixando Paolo aos cuidados de seus tios. Assim, o reencontro
dos dois, 15 anos mais tarde, ocorre por mera sugestão
médica: possivelmente a presença paterna durante
a viagem de Paolo a um centro de recuperação
na Alemanha ajudaria no tratamento do garoto.
Para
os mais afastados da questão da deficiência,
o filme ajuda a penetrar neste universo, que talvez não
seja tão peculiar assim. O último censo do IBGE
aponta que 14,5% da população brasileira apresenta
algum tipo de deficiência. No município de São
Paulo, com uma população de cerca de 10 milhões
de habitantes, foram encontrados 10,32 % de pessoas com alguma
deficiência (sendo 1,26% mental, 2,37% auditiva, 3,27%
motora, 0,72% física e 6,59% visual).
Mas
longe de discutir estatísticas em saúde ou causas
para números tão altos, a maior contribuição
do filme talvez seja a de “humanizar” o portador
de deficiência, não mostrar alguém inferior,
porém diferente. A incapacidade física e mesmo
a leve alteração mental de Paolo não
destruíram sua determinação e a crença
de que irá vencer suas dificuldades. Ele mostra, ao
recusar ajuda do pai para andar, que pode ser independente;
não importa se para isto ele conte com a ajuda de uma
bengala.
Ao
longo de sua viagem e tratamento, Paolo parece ao espectador
alguém não apenas diferente, porém especial
e necessário. Para seu pai, seus tios e até
uma namoradinha distante, a quem Paolo envia seu afeto por
correspondência.
No
Brasil, há um ano vigora a Lei 8.213/91, que estabelece
“cotas” para a admissão de portadores de
deficiência física em empresas. Embora seja desnecessária
em culturas mais desenvolvidas, no Brasil a lei é um
marco trabalhista e social. Ao contrário do que ocorria
em programas do passado, em que os portadores recebiam salários
menores que os dos colegas “normais” por uma mesma
jornada de trabalho, a lei estipula salários e benefícios
iguais para os portadores.
Fernando
Esmerindo, 30 anos, comemora. Há quatro meses trabalhando
em um laboratório farmacêutico, Fernando se lembra
de quando conseguiu seu primeiro emprego, aos 22 anos, nos
Correios de Osasco: “Passei a ajudar nas contas e até
a manter a minha casa. Me senti alguém útil,
integrado às outras pessoas e responsável –
não me sentindo mais um deficiente”.
Depois
dos Correios, Fernando trabalhou em um programa de vagas para
portadores de deficiência e acumulou grande experiência
nesta área. Para ele, a sociedade é quem limita
o deficiente: “A falta de um membro ou função
não tiram do indivíduo a vontade de superação,
reconhecimento social e o desejo de ter sucesso”. Quanto
à lei das cotas, ele a considera positiva: “Hoje,
as empresas são obrigadas, sob pena de multa, a contratar
deficientes – não é algo que elas queiram.
Mas antes da lei, não havia muita colocação
para estes profissionais”.
Ele
concorda que isto talvez seja um estágio necessário
para educar a sociedade “à força”,
mas reconhece que há grandes necessidades a serem superadas,
como uma melhor qualificação destes profissionais.
“Entretanto, agora os portadores poderão estudar
e se esforçar mais, afinal eles terão perspectivas
de retorno deste investimento.”- completa.
Para
Sílvia Oliveira, fisioterapeuta que realiza mestrado
em Reabilitação pela Unifesp, as maiores barreiras
para a integração e convivência normal
com portadores de deficiência são sentimentos
de pesar; de “dó” que as pessoas podem
vivenciar ao ter os primeiros contatos com portadores. Segundo
Sílvia, até os terapeutas têm que vencer
este sentimento em relação a seus pacientes:
“Não podemos ter pena. Pena é um sentimento
muito ruim, que vem junto com o preconceito, o medo de se
aproximar, de tocar, etc.”.
Qual
o remédio receitado por Sílvia? “Aproximar-se,
conversar com aquela pessoa e procurar saber o que aconteceu.
Muitas vezes, foi algo que poderia acontecer com você.
O portador de deficiência é alguém normal
como você, mas que precisa se adaptar a um mundo que
não foi feito para ele.”
No
ambiente de trabalho, esta comunicação e aceitação
serão fundamentais para a integração.
Inicialmente poderá haver dificuldades, pena, não
saber como ajudar, etc. Conversando com o deficiente, ele
mesmo irá mostrar o caminho, de qual é a ajuda
que ele precisa, do que não precisa. Como o pequeno
Paolo.
O
ano de 2006 pode representar uma data importante para maior
conscientização pública sobre as potencialidades
das pessoas portadoras de deficiência. Além da
aplicação da Lei das Cotas, a Igreja Católica
lançou o deficiente como tema central da Campanha da
Fraternidade deste ano, sob o tema “Vem para o Meio”.
Tantos esforços somados devem facilitar e ampliar a
integração efetiva das pessoas “especiais”
à sociedade. Mil Fernandos comemoram, centenas de Sílvias
também.
A
certa altura do filme de Amelio, Paolo e o pai estão
enamorados um do outro. O menino então tira do bolso
as chaves que usa para abrir as portas da casa onde vive com
seus tios e pergunta: “Poderei entrar em sua casa com
minhas chaves”? O pai responde que sim, pois após
aquela viagem o filho já entrara em seu coração.
Ao
final do filme, alguns da platéia saem pensando quais
seriam as chaves para a verdadeira integração
dos portadores de deficiência na nossa sociedade. Para
Fernando, a chave seria a mudança na cabeça
das pessoas, no sentido de não verem o deficiente como
um deficiente, e sim como alguém capacitado para executar
a tarefa: “Nas entrevistas de trabalho, é como
se enxergassem os portadores como pessoas de vidro, prontas
a romper a qualquer momento, ou então enxergam apenas
as limitações daquela pessoa, sem abrir os horizontes
para as potencialidades que aquela pessoa pode ter”.
Assim
como Sílvia, Fernando acredita que, à medida
em que dermos mais espaço ao outro – a pessoa
com necessidades especiais – ele poderá, enfim,
preenchê-lo. E as pessoas, portadoras ou não
de alguma deficiência, poderão viver em uma sociedade
de fato especial.
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Luciana Mourão Fanti é médica com especialização
em divulgação científica pelo Núcleo
José Reis da ECA/USP e gerente médica do laboratório
Bristol Myers Squibb do Brasil.
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