ÉTICA
Início
da vida e
células-tronco embrionárias
GABRIELA
GUZ e MARCO SEGRE
O
que é vida? Biologicamente, é um conjunto de
características, absolutamente variáveis de
uma espécie para outra (veja-se, a título de
exemplo, as diferenças entre uma bactéria e
um ser humano), todas elas observadas e verificadas por estudiosos.
Mas essa caracterização da vida é vista
“de fora”. O que significa isso? Que a descrição
desses aspectos todos nos permite saber “o que consideramos
vida”, mas não o que a vida de fato é.
A essência da vida está na subjetividade, na
forma como cada um a percebe e, portanto, ela é indefinível,
e sua experiência, inefável. Se nos louvarmos
nas religiões, a vida precede a concepção
e o nascimento e ultrapassa a morte - todos fenômenos
biológicos percebidos “de fora”.
Se
não conseguimos definir o que é “vida”,
dentro dessa óptica, muito menos poderemos definir
quando ela tem início nem quando termina. Mesmo nessa
visão “de fora”, quando procuramos dizer
que há vida a partir de determinadas manifestações,
abrangeremos como vivas cada uma das células de um
organismo, um espermatozóide, um óvulo e, ainda,
uma pessoa em coma profundo, só para exemplificarmos
a partir de seres humanos. O que importa, portanto, e desejamos
que fique bem claro, é definir a partir de quando,
e até quando, queremos considerar e respeitar “algo”
como vivo.
Não
havendo possibilidade de dissociarmos o que queremos considerar
“vivo” de aspectos biológicos - portanto,
vistos “de fora” -, admitamos que a impossibilidade
de estabelecer o início e o fim da vida nos obriga
a dar um caráter aleatório a essas demarcações.
É necessário, sim, estabelecer esses parâmetros,
precipuamente, para sabermos a partir de quando e até
quando, de acordo com os valores de nossa sociedade, devemos
respeitar a vida.
Com
essa introdução, desejamos colocar ênfase
no fato de que não é o cientista, o biólogo
ou o médico quem nos dirá quando a vida humana
começa ou termina, cabendo a esses profissionais, tão-somente,
a descrição dos fenômenos biológicos.
A
fixação desses parâmetros (começo
e fim da vida) somente será determinada a partir de
fatores culturais, religiosos etc. A atual discussão
acerca da utilização de células-tronco
embrionárias para fins de pesquisa e terapia reflete
claramente que o conceito de “vida” e, conseqüentemente,
a definição de seu início passam, fundamentalmente,
por valores individuais de pessoas, sejam elas cientistas
ou leigas. É o que explica o fato de a própria
comunidade científica não apresentar um conceito
único de início da vida humana.
Assim,
é preciso lembrar que, fazendo ciência, estão
cientistas - indivíduos que, como quaisquer outros,
são dotados de valores, crenças e culturas.
Se não cabe à ciência determinar quando
começa a vida, caberá ao direito definir a partir
de que momento ela deve ser protegida? Não há
dúvidas de que se faz necessário estabelecer
a partir de que momento a vida será passível
de proteção jurídica. Entretanto, é
preciso entender que o direito não constitui uma “entidade”
à parte da sociedade. Ao contrário, é
instrumento por ela e para ela criado. Em outras palavras,
é o direito que serve a sociedade, e não a sociedade
que serve o direito. Portanto, para que determinada demarcação
de início da vida venha a ser traduzida em lei, deverá
ser o resultado de um processo democrático de escolha
exclusivamente da sociedade. É o que ocorre, por exemplo,
na Itália, onde se realizou recentemente um referendo
sobre normas referentes à procriação
assistida.
Para
tanto, é fundamental que se promovam debates nos quais
prevaleçam a clareza, a transparência e, acima,
de tudo, o respeito à pluralidade de opiniões.
Definir a partir de que momento a vida humana deverá
ser passível de proteção jurídica
é questão extremamente difícil, mas que
deverá ser enfrentada pela sociedade, porque somente
por ela poderá ser decidida.
-
Gabriela Guz, advogada, professora de ética médica
da Unisa (Universidade de Santo Amaro), é especialista
em bioética pela USP. Marco Segre, médico, é
professor emérito da Faculdade de Medicina da USP,
presidente da Sociedade de Bioética de São Paulo
e membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
do Ministério da Saúde.
- Fonte: Folha de S.Paulo.
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