MUSICOTERAPIA
Música
nos hospitais
ELISETH
RIBEIRO LEÃO
Porque
haveríamos de desejar ter música nos hospitais?
E de quem seria a responsabilidade de disseminá-la
nesse meio?
Em
resposta simples à primeira questão, poderíamos
dizer a princípio, para entretenimento dos pacientes
e acompanhantes, assim como para tornar o ambiente hospitalar
mais agradável. Sim, essa seria uma possibilidade,
porque a hospitalização constitui um momento
de ruptura na vida das pessoas, no qual os aspectos sociais
e culturais, além dos biológicos e psíquicos
se encontram comprometidos, portanto, uma proposta de música
nos hospitais pode e deve ir além disso. E o que dizer
do ambiente então?
Por
mais que os profissionais que ali atuem se preocupem com esse
aspecto sob a égide da humanização, o
ambiente hospitalar, com sua sonoridade peculiar (bips de
monitores, alarmes de equipamentos, etc) sempre é caracterizado
por uma certa tensão, doses variadas de sofrimento,
dor, desafios na luta pela vida, dificuldades no enfrentamento
de perdas e da morte que levam a pairar no ar estados de ansiedade,
depressão, temor.
Via
de regra é assim fazendo com que as pessoas tenham
a sensação de um pulsar de vida “lá
fora” e dificuldades de percepção da vida
que continua a pulsar ali dentro, pois não temos também
o hábito bem desenvolvido de ressaltar os aspectos
positivos no processo saúde-doença. A música
nesse contexto pode se transformar, se intencionalmente conduzida,
de entretenimento para um recurso terapêutico relevante.
Florence
Ninghtingale, precursora da enfermagem moderna já ressaltava
isso há quase 150 anos. Todavia, se o potencial terapêutico
da música ainda não é bem explicado pela
ciência, é ao menos reconhecido pela humanidade
desde tempos imemoriais.
A
despeito dos relatos mitológicos ou bíblicos
sobre os seus efeitos, Platão e Aristóteles
já afirmavam que a música tem a capacidade de
nos harmonizar, de favorecer o equilíbrio, de liberar
as nossas emoções em um processo catártico.
Para Nietzsche a vida sem a música poderia ser considerada
simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio.
Se
pensarmos que o hospital pode ser facilmente concebido como
um local de exílio, já que vimos que as pessoas
hospitalizadas são arrancadas do seu cotidiano, poderíamos
dizer que um hospital sem música é um duplo
exílio. Portanto, a música no hospital, mais
do que útil, sob o ponto de vista terapêutico,
é simplesmente necessária.
Falar
de música nos hospitais traz freqüentemente à
tona o termo musicoterapia. Existem diversas definições
cunhadas por vários profissionais da saúde,
o que por vezes gera algumas confusões de aplicação
e sentido. A musicoterapia pode ser compreendida, de maneira
bastante ampla, como a utilização da música
com finalidade terapêutica. Todavia, para muitos musicoterapeutas
(profissionais graduados em musicoterapia) tal definição
não constitui musicoterapia, por não envolver
o estabelecimento de uma relação terapeuta/cliente,
e sim, música terapêutica – a música
utilizada como cuidado por diversos outros profissionais.
Por
sua vez, para muitos músicos, música terapêutica
é considerada um gênero musical (comumente observada
em catalogação de CDs). Todavia, vale ressaltar
que não existe o termo música terapêutica
como Descritor de Ciências em Saúde (DECs), somente
musicoterapia, como uso da música como uma terapia
adicional no tratamento de distúrbios neurológicos,
mentais ou comportamentais. O DECs é um vocabulário
estruturado trilíngue (português, espanhol e
inglês) criado para uso na indexação de
artigos de revistas científicas, livros, etc, assim
como para ser usado na pesquisa e recuperação
de assuntos da literatura científica em bases de dados
internacionais.
Portanto,
todo trabalho desenvolvido com foco em música e saúde,
independente da categoria profissional, não tem muitas
possibilidades de indexação, o que o leva a
ser obrigatoriamente indexado com o descritor musicoterapia
ou, dependendo da natureza do trabalho, com o descritor estimulação
acústica (uso do som para extrair uma resposta no sistema
nervoso) ou música, cuja nota de indexação
remete novamente à musicoterapia. O termo é
utilizado até mesmo em pesquisas voltadas à
sua utilização junto a animais desenvolvidas
em Universidades do Canadá e Inglaterra.
Por
outro lado se considerarmos ainda, como de caráter
musicoterápico, a relação terapeuta/cliente,
tendo a música como mediadora de processos terapêuticos
como os observados na área de saúde mental,
nos deparamos com o exercício desta atividade sendo
realizada há muitos anos por médicos e enfermeiros
psiquiátricos, assim como na psicologia. Curiosamente,
uma das teorias de musicoterapia mais difundidas no Brasil
foi desenvolvida por um psiquiatra argentino, Roland Benenzon.
Fato
é que para os pacientes e para o público leigo
em geral (incluindo a mídia) ter música no hospital
é considerado praticamente sinônimo de musicoterapia
e uma longa trajetória ainda deverá ser percorrida
para que não surjam mais dúvidas a esse respeito.
A inserção efetiva desse profissional nas equipes
de saúde muito irá contribuir para a definição
dos espaços de atuação.
Fato
é também que a música sempre foi e continuará
sendo objeto de estudo e prescrição de diversos
profissionais da saúde, cada um dentro do âmbito
de suas atividades, com seus respectivos referenciais teóricos
e com a devida sistematização de seus processos
assistenciais.
Por
último, mas não menos importante, temos que
abordar ainda a participação dos músicos.
Música nos hospitais, que apresentamos neste artigo
como um conceito de atenção em saúde,
é também a denominação homônima
de dois projetos. Um desenvolvido no Brasil pela Orquestra
do Limiar que objetiva proporcionar aos médicos, pacientes
e funcionários, momentos de paz, descontração,
cultura e lazer no ambiente hospitalar. O outro é conduzido
na Europa. Trata-se de músicos com formação
específica de um ano, em uma universidade na França
para atuarem em hospitais, dentro de uma abordagem de humanização
e de constituição de mais um espaço de
cultura, com ênfase no aspecto relacional. Embora tais
músicos não reivindiquem de forma alguma qualquer
efeito terapêutico, na realidade esses saltam aos olhos
de quem acompanha o projeto.
Isso
posto, talvez já possamos responder à segunda
questão. Se compreendermos a saúde como um bem
socialmente compartilhado e a música como um recurso
que contribua para isso, ter boa música nos hospitais
é de responsabilidade dos profissionais da saúde,
dos músicos, como de todo e qualquer cidadão.
Entretanto, mais do que desejo e boas intenções
há que se ter conhecimento, consciência e competência
que podem ser aprendidos e compartilhados.
Vista
dessa forma, a música pode ser uma experiência
enriquecedora, não só para os pacientes e familiares,
mas para todos os profissionais envolvidos. Cada profissional
que carrega consigo a música, como intervenção
(ou atuação), tem muito a contribuir. Cada um
parte de um lugar diferente, mas com objetivos humanísticos
muito semelhantes, fazendo valer assim a idéia de que
somos diferentes, mas não estamos sós.
Talvez
seja por isso que a música seja considerada uma linguagem
universal, pois configura sempre uma possibilidade de diálogo
com outros códigos, sejam eles representados por conhecimentos
advindos da filosofia, da psiquiatria, da psicologia, da enfermagem,
da musicoterapia ou da própria música.
Dessa
forma, ela nos permite, para além da possibilidade
criativa e de contato com compositores maravilhosos, o deleite
em discutir com diversos interlocutores convidados a participar
do que pode ser considerado um grande ensaio de orquestra,
como Vigotsky, Martha Rogers, Adorno, Arendt, Jung, Martin
Buber, entre outros, que podem efetivamente nos fundamentar
para transformar o sonho da música nos hospitais em
realidade corrente em nosso meio.
-
Eliseth Ribeiro Leão é doutora em Enfermagem
pela USP, pós-doutoranda da Universidade Marc Bloch
(França) e coordenadora do Projeto “Uma Canção
no Cuidar” do Hospital Samaritano.
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