LIVRO
De
Freud a Lacan, os
grandes casos de psicose
HÉLIO
DANIEL CORDEIRO
O
aparecimento da psicanálise no final do século
XIX no coração de uma Europa conservadora, como
era a Viena do Império Áustro-húngaro,
balançou forte as estruturas da sociedade vienense
que desconfiava de tudo aquilo que poderia sair da harmonia
das valsas de Strauss ou do fluir das águas do Danúbio.
O
debate, especialmente junto à classe médica,
ganhou maior repercussão com a divulgação
dos conceitos básicos psicanalíticos, como o
do inconsciente e complexo de Édipo. Freud, na sua
condição judaica e diante do anti-semitismo
imperial, teve que vencer outros preconceitos para fazer reconhecida
sua ciência.
As
décadas seguintes foram marcadas, por um lado, pelo
fortalecimento das sociedades psicanalíticas nas principais
capitais européias, enquanto paralelamente surgiam
as dissidências que romperiam com a ortodoxia freudiana.
Jung e Wilhelm Reich são exemplos desta rebeldia, que
no fundo foi muito saudável - pensando globalmente
- para o alargamento das fronteiras da psicanálise
(ou ao menos de sua base teórica), para outros países
e classes sociais.
Após
mais de um século de vida a psicanálise já
coleciona em sua história alguns dos casos mais clássicos
dos estudos psíquicos e do comportamento humano. Pensando
nisso e de como os mesmos podem ser estudados foi que J.-D.
Nasio, psicanalista e professor na Universidade de Paris VII
(Sorbonne) reuniu em Os Grandes Casos de Psicose
(Jorge Zahar Editor), um time de especialistas para descrevê-los.
Por suas páginas encontram-se episódios célebres
da clínica diária de Freud, Klein, Winnicott,
Bettelheim, Dolto e Lacan.
A
preocupação inicial do organizador do livro
é explicar aquilo que considera um “caso de psicose”.
Em sua acepção mais comum, o termo designa,
para o analista, o interesse muito particular que ele dedica
a um de seus pacientes. Na maioria das vezes, esse interesse
leva a um intercâmbio de sua experiência com seus
colegas (supervisão, grupos de estudo clínico
e outras abordagens), mas também pode evoluir para
uma atenta observação escrita, que constitui
o caso clínico clássico.
Escreve
Nasio: “Em psicanálise, definimos o caso como
o relato de uma experiência singular, escrito por um
terapeuta para atestar seu encontro com um paciente e respaldar
um avanço teórico. Quer se trate de um relato
de uma sessão, do desenrolar de uma análise
ou da exposição da vida e dos sintomas de um
analisando, um caso é sempre um texto escrito para
ser lido e discutido. Um texto que, através de seu
estilo narrativo, põe em cena uma situação
clínica que ilustra uma elaboração teórica.”
E
quais os maiores casos clínicos da história
da psicanálise, segundo Nasio? O primeiro deles, claro,
é o Caso Schreber, estudado por Freud e discutido no
livro por A. Coriat e C. Pisani. Freud nunca esteve com Daniel
Paul Schreber, mas deteve-se a estudá-lo através
do livro Memórias de um Doente dos Nervos,
escrito pelo próprio “analisado” e publicado
em 1903. Para Freud, o doente psicótico retirava dos
objetos libidinais e do mundo em geral uma grande parte de
seus investimentos; vivia em seu espaço interno e,
por conseguinte, não podia ter acesso à psicanálise.
Na
seqüência aparecem os casos “Dick ou o sadismo”
(Melanie Klein), “A pequena Piggle ou a mãe suficientemente
boa” (D. W. Winnicott), “Joey ou o autismo (Bruno
Bettelheim), “A menina do espelho ou a imagem inconsciente
do corpo” e “Dominique ou o adolescente psicótico”
(Françoise Dolto) e “As irmãs Papin ou
a loucura a dois” (Jacques Lacan), que analisa o crime
na cidade de Le Mans em 1933, que assombrou a sociedade francesa.
A metodologia de análise empregada por Lacan revolucionou
a clínica psicanalítica.
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Hélio Daniel Cordeiro é autor de A Filosofia
na Caverna de Platão (Capital Editorial), dentre
outros.
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