CRIMINALÍSTICA
DNA: a ciência a serviço da sociedade
MANOEL BENEVIDES

     Nos últimos anos, através do estudo do DNA, a ciência deu uma grande contribuição para a resolução de casos relativos à identificação de pessoas desaparecidas e a solução de crimes. A identificação humana a partir de DNA funciona como uma espécie de código de barras. Assim como o código de barras identifica um produto, as informações do DNA demonstram o código genético de cada ser humano. Este código é único e distingue determinada pessoa de todas as outras. Pessoas mortas há dezenas, centenas de anos, podem ser identificadas através do DNA obtido de ossos ou dentes, por exemplo.
     Na área criminal, a principal aplicação do exame de DNA se dá na identificação de pessoas assassinadas, cujos corpos não foram oficialmente encontrados, e também para apontar a autoria de crimes. Conhecidos como exames forenses, esses exames de DNA podem ser realizados em diversos materiais como ossos carbonizados, ossadas, dentes, manchas de material biológico, fios de cabelo, pelos, unhas, material anatomopatológico, tecido biológico em estado de putrefação, saliva, secreção vaginal, cordão umbilical e líquido seminal.
     Esses materiais podem ser coletados dos mais diversos lugares e objetos, como, por exemplo, salivas em canudinhos de plástico, chicletes mascados, fios de cabelo, sangue ou suor em peças de roupa ou cenas de crime. O sucesso da análise depende do estado do material analisado. O grau de deterioração, a forma de conservação e o tempo decorrido podem influenciar o resultado ou impedir a identificação.
     O caso mais recente, amplamente divulgado na mídia, foi o da identificação dos restos mortais do militante político Flávio Carvalho Molina, morto durante o regime militar na cidade de São Paulo, em 1971. Flávio Molina foi enterrado com o nome falso de Álvaro Lopes Peralta e, posteriormente, os restos mortais foram transferidos para uma vala clandestina. Em 4 de setembro de 1990 a vala foi aberta e as 1.049 ossadas que estavam no local foram encaminhadas para a Unicamp para que fosse feito o processo de identificação.
     Posteriormente, os restos mortais ficaram sob a guarda da Universidade de São Paulo. Desde que foi exumada, a ossada de Flávio Molina vinha sendo submetida a tentativas de identificação em laboratórios do Brasil, Colômbia e Inglaterra. Em 2004, a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos foi acionada pelo irmão de Flávio Molina, Gilberto Carvalho Molina, para dar seguimento ao processo de identificação na Universidade de Buenos Aires. Entretanto, a equipe Argentina não obteve êxito na identificação.
     Neste ano, o material foi enviado à Genomic, que realizou a identificação a partir da extração de DNA de uma amostra do fêmur, que foi confrontado com material genético da mãe de Flávio Molina. A responsabilidade do Estado na morte do militante foi reconhecida em 1996 e o pedido de indenização foi aprovado por unanimidade pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, com base na Lei 9.140/95.
     Esse é apenas um exemplo dos muitos casos antes chamados de insolúveis, que podem ser solucionados com o auxílio da ciência, em particular o exame de DNA de ossada. As informações genéticas aí contidas elucidam crimes e facilitam o reconhecimento de pessoas desaparecidas. Porém, para que esse objetivo seja cumprido e as vantagens da ciência sejam aplicadas, há a necessidade de os governos e a sociedade iniciarem uma discussão sobre as vantagens e desvantagens da constituição de um Banco de DNA, sua utilidade e viabilidade ética.
     Em especial nos países constantemente ameaçados por tragédias naturais ou terrorismo, a criação de um Banco de DNA seria a ferramenta ideal para a identificação de vítimas. Nos EUA, Inglaterra e dezenas de outros países já existem, por exemplo, banco de dados de DNA de criminosos e amostras de cenas de crime, o que ajudou a polícia americana em mais de 27 mil inquéritos.

- Manoel Benevides é diretor da Genomic Engenharia Molecular, especializada em exames por análise de DNA.

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