PSIQUIATRIA
Por
que choro mais que o bebê?
LUCIANA
MOURÃO FANTI
A atriz Brooke Shields, autora
de Depois
do Parto, a Dor |
A
dádiva de ser mãe - o ser especial, capaz de
originar a vida e por ela entregar-se incondicionalmente -
sempre foi considerada algo sagrado, natural e desejado por
toda mulher. Quando a maternidade é o reverso disto,
o susto da sociedade e da própria mulher que se tornou
mãe é devastador. É o que Brooke Shields,
atriz norte-americana, conseguiu retratar com extrema franqueza
em seu livro de estréia Depois do Parto, a Dor
(Prestígio Editorial), sobre sua experiência
com a depressão pós-parto.
Há
cerca de quatro anos, Brooke Shields deu à luz a pequena
Rowan, filha de seu casamento com o redator humorístico
Chris Henchy. E, logo na sala de parto, sentiu que algo não
ia bem. Seus sentimentos não eram compatíveis
com o esperado para uma mulher que havia tentado tão
arduamente engravidar. Ao invés de querer sua filha
em seus braços, sentia um misto de raiva e angústia,
chegando a pensar em se jogar no East River, que ficava próximo
ao hospital em que se encontrava.
E
estes estranhos sentimentos foram seguidos por meses de incompreensão,
medo, tristeza, solidão e uma terrível culpa
por não sentir absolutamente nada por sua pequena e
perfeita filha. Brooke Shields demorou a descobrir, mas com
ajuda de alguns amigos e médicos, chegou à verdade
sobre seu estado: sofria de um quadro grave de Depressão
Pós-parto - DPP, também chamada de Depressão
Puerperal.
Os
sintomas iniciais do distúrbio podem ser ansiedade,
inquietude e insônia. Vão surgindo tristeza,
desesperança, falta de prazer com atividades previamente
prazerosas e, muitas vezes, pensamentos sobre morte ou vontade
de morrer. Porém, diferente de outros quadros depressivos,
é comum na DPP a presença de um forte sentimento
de culpa na mãe, uma vez que ela não consegue
estabelecer com o recém-nascido o vínculo de
amor que imaginava, experimentaria logo que a criança
viesse ao mundo.
A
Depressão Pós-parto acomete cinco a 20% das
mulheres que recentemente deram à luz, em geral aparecendo
nos seis primeiros meses após o parto. Ocorre com maior
freqüência em mulheres com antecedentes pessoais
ou familiares de depressão, primeira gestação,
discórdia conjugal, suporte social pobre e problemas
relacionados à gravidez, tais como ocorrência
prévia de DPP, abortos, natimortos, etc.
No
entanto, apesar dos fatores de risco já conhecidos,
a DPP é um transtorno do humor que historicamente tem
sido minimizado por profissionais da saúde, sendo que
mais da metade dos casos não é identificada,
com riscos para mães e suas famílias. Em casos
extremos, pensamentos ou tentativas de suicídio ou
de matar a criança podem ocorrer, em uma “tentativa”
desesperada de sair de uma situação insuportável.
Segundo
o psiquiatra Luís Antônio Nogueira Martins, da
Universidade Federal de São Paulo, há evidências
de fatores orgânicos que contribuem para a instalação
muitas vezes abrupta da DPP: após o nascimento da criança
e saída da placenta, há rápida queda
dos hormônios estrogênios e da progesterona, o
que pode afetar o funcionamento psíquico global.
Há
dados indicando queda de hormônios produzidos pelas
glândulas pineal (melatonina) e hipófise, e há
ainda casos de hipotireoidismo desencadeado no momento do
parto (por esta razão a medida do nível de hormônio
tireoidiano em puérperas - mulheres que deram à
luz - é hoje rotina em alguns hospitais). Entretanto,
como a maioria dos transtornos psíquicos, há
também fatores muito subjetivos que predispõem
ao surgimento dos sintomas.
Para
Martins, todas as pessoas podem ser vistas como detentoras
de capacidades e vulnerabilidades, forças e fraquezas,
e há períodos ou situações de
vida em que elas estão mais vulneráveis ou quando
esta vulnerabilidade se expressa mais. Para a mulher, o chamado
ciclo “gravídico-puerperal” - período
que corresponde à gestação e pós-parto
- é um destes momentos, pois desencadeia estímulos
como ansiedades, conflitos, medos.
Dentro
desta perspectiva mais individual, é possível
enxergar as expectativas e caminhos percorridos por uma determinada
mulher durante a gravidez, que – planejada ou não
– tem um sentido em sua vida. Nestes caminhos, experiências
vividas por ela própria ou pessoas próximas
em relação à gravidez podem constituir
estímulos importantes para o aparecimento das mais
diversas emoções a partir do nascimento da criança.
Hoje
é conhecido entre especialistas que, mesmo que não
se desenvolva um quadro de depressão, o mais comum
é que a mulher fique um pouco “esquisita”
após dar à luz. A Disforia Pós-parto,
também conhecida como Blues Pós-parto é
um estado de fadiga, crises de choro, ansiedade, tristeza,
alterações emocionais freqüentes e sentimentos
de inadequação ou despreparo para exercer a
nova função de mãe, que atinge até
85% das puérperas em algum grau.
Martins
explica que “o estado gravídico costuma ser satisfatório
para a mulher, havendo um sentimento abstrato de esperança
ou expectativa em relação ao futuro. O parto
é a ruptura com este estado, traduzida pela expressão
‘e agora?’ e visões românticas sobre
a maternidade logo se transformam em uma realidade em que
a mulher deve estar pronta para atender às necessidades
mais básicas de um ser real, que passa a chorar ou
ter cólicas inexplicáveis”. Martins alerta
que o Blues Pós-parto dura algumas semanas, e os sintomas
vão melhorando com o tempo. Quando não ocorre
tal melhora, deve-se procurar ajuda especializada, pois pode-se
estar diante da instalação de um quadro de depressão
pós-parto, que é uma situação
mais grave e prolongada.
Além
do sofrimento da mãe, o livro de Brooke Shields ilustra
bem a dor dos familiares diante desta situação
– especialmente o marido, pais e sogros. O problema
é que geralmente familiares e amigos não conseguem
reconhecer que estão diante de um quadro que merece
atenção médica e acabam agindo de forma
inadequada, tentando “convencer” a mãe
de que tudo está bem e portanto ela não tem
motivos para tanta tristeza e desespero.
Segundo
o psiquiatra Martins, embora seja compreensível a apreensão
dos familiares, confrontar a tristeza da mãe com elementos
“racionais” – tais como um parto bem sucedido,
uma criança normal, etc. – até piora a
sensação de culpa e impotência da própria
paciente. A melhor ajuda que pessoas próximas podem
oferecer é tentar se informar sobre a situação
e procurar ajuda especializada com um profissional da saúde
ou equipe multidisciplinar.
Em
conjunto, obstetra, pediatra, psicólogo e/ou psiquiatra
poderão avaliar juntamente com a paciente quais medidas
tomar. Por exemplo, explica Martins, condutas tais como o
alojamento conjunto do bebê com a mãe na maternidade
não deveriam ser recomendadas para todos os casos,
e sim individualizadas para cada situação, e
em casos graves de DPP - quando a mãe utiliza antidepressivos
ou outros medicamentos - a continuidade da amamentação
não deve ser vista como um dogma, e sim avaliada caso
a caso.
Embora
só recentemente a DPP tenha se tornado um assunto mais
conhecido, especialistas negam que esta seja uma doença
da modernidade ou inventada. “Quando se nomeia algo,
passa-se a lidar com o fenômeno. Antigamente, é
possível que estas coisas não tivessem nome
e portanto ficavam no abstrato, sem ser lidados diretamente”
– pontua Luís Antônio Nogueira Martins.
O
importante é ficar atento. A despeito da visão
idealizada da gestação e maternidade, mudanças
hormonais importantes junto com experiências prévias
e traços individuais fazem deste um período
delicado na vida da mulher. Assim, caso uma simples “tristeza”
após o parto não melhore dentro de duas semanas,
Martins já recomenda que haja a avaliação
de um especialista, para ver se é necessário
introduzir um tratamento específico. Se este for o
caso, vale lembrar que as chances de recuperação
são boas e que, afinal, isto não é “culpa”
de ninguém, como, afinal, já aprendeu Brooke
Shields.
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Luciana Mourão Fanti é médica
com especialização em divulgação
científica pelo Núcleo José Reis da ECA/USP
e gerente médica do laboratório Bristol Myers
Squibb do Brasil.
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