LEITURAS
Recortes
psicanalíticos
(primeiras leituras)
HÉLIO
DANIEL CORDEIRO
Meu
primeiro contato com a psicanálise foi através
de um artigo publicado no jornal O Liberal, de Americana
(SP), o mesmo periódico onde naquela época (início
dos anos 80) publiquei meus primeiros artigos. A matéria
que li tinha um título sugestivo: “A psicanálise
é um negócio dos judeus e eles sabem como fazer
negócios”, assinado por Walmor de Valmorin, que
misturava Freud com Rajneesh como Paulo Francis costumava
associar Marx com Madonna.
Aquela
matéria valeu para despertar minha curiosidade em torno
do tema psicanalítico.
Então
aos 20 anos de idade e leitor da Folha e do Estadão
(jornais que eram meu contato com as grandes idéias
do mundo), fui colecionando e lendo uma série de artigos
e ensaios em torno do novo interesse. Hoje, estes recortes
e cadernos inteiros me permitem historiar sobre o tema, o
que não deixa de ser uma auto-análise intelectual.
Sigmund
Freud |
Vasculhando
meus arquivos cheguei aos textos mais antigos: um Folhetim
(aquele extinto e de tanta saudade suplemento da Folha
de S. Paulo) de 1983 com textos de Hélio Pellegrino,
Marilene Carone, Osmyr Faria Gabbi Jr. e Renato Mezan. Só
fui ler efetivamente com detida atenção o ensaio
de Mezan “O que Pedro diz sobre Paulo” em 1988.
Afinal, nem sempre temos na hora o tempo necessário
que certas leituras exigem. De outro Folhetim (também
do mesmo ano do anterior) guardei o recorte do ensaio de Fábio
Herrmann: “Horkos ou ‘Pelos charutos de Freud’”.
Desde
então, minha coleção de “recortes
psicanalíticos” foi sendo enriquecida. Não
vou mencionar todos eles agora, mas selecionei uma série
para traçar rápidos comentários, só
citando a fonte quando merecer maior importância.
Começo
pelo artigo de Jacob Pinheiro Goldberg, psicoterapeuta dono
de uma prosa poética desembaraçada, que escreveu
sobre “Hamlet e a sociedade em crise” em um jornal
de Campinas (SP) mostrando sua ilustração com
citações de Francis Fergusson, Sartre, Cervantes,
Coleridge, Bradley, Goethe e Freud. Este deve ser –
afirma Goldberg – o guia turístico para quem
quiser entender a crise brasileira dos anos 80, mergulhando
urgente na Grécia.
O
recorte seguinte fala de uma palestra de Flávio Gikovate
na Unicamp, comentando sua especialidade: sexualidade. Ainda
da fase que morei e estudei em Campinas (1984-86), coleciono
um artigo de Manoel Tosta Berlinck (que viria a entrevistá-lo
posteriormente em São Paulo) sobre o lançamento
do livro Hamlet por Lacan1, que posteriormente
me seria presenteado pelo colega de estudos sobre o marranismo,
Paulo Valadares, no meio de meu primeiro mergulho na psicanálise
(1988) e lido em posteriormente. Meu interesse pela psicanálise
renasceu a partir da leitura da obra Moreno e o Hassidismo,
de Benjamin Waintrob Nudel2
(1994).
Betty
Milan, consagrada psicanalista lacaniana, surgiria na minha
vida escrevendo sobre o primeiro ano da morte de Gilberto
Freyre. Miriam Chnaiderman já me era familiar nessa
época e divulgava na imprensa as conferências
do analista argentino Luís Horstein. Renato Mezan (entrevistado
e mais lido por mim posteriormente3),
divulgava os seminários do analista francês Conrad
Stein. O mesmo fazia Paulo César Souza com o analista
inglês Joseph Sandler. Assisti às palestras de
Stein e Sandler em São Paulo.
Vamos
em frente!
Vejamos
algo sobre a visita de Eva Reich ao Brasil4.
Austríaca radicada nos Estados Unidos desde 1937, veio
para realizar seminários e conferências sobre
a obra de seu pai, o polêmico psiquiatra Wilhelm Reich
(1897-1957), cuja obra merece uma análise à
parte5.
O que diz Eva Reich? “O mundo só deixará
de ser violento quando se entender que, ao nascer, a criança
precisa do contato com o corpo da mãe, de forma amorosa
e erótica.”
Por
que as universidades resistiram às idéias de
seu pai? “Os acadêmicos ainda o consideram herético,
maldito, porque apregoava a liberdade do corpo e não
acreditava na psicanálise feita através da palavra.
Ele considerava o orgasmo necessário para o paciente
se sentir melhor.” Para a filha Eva, a maior inovação
de Reich para a psicanálise foi introduzir nela técnicas
corporais.
Wilhelm
Reich |
Segundo
Reich, o corpo fala, embora Freud considerasse necessário
integrar o indivíduo na sociedade através da
palavra, o que é importante, sem ser o único
instrumento terapêutico. Creio que a diferença
fundamental entre Reich e Freud é muito bem mostrada
no livro Reich Fala de Freud, de Kurt Eissner. Enquanto
Reich acreditava que o bebê era um ser desamparado e
com necessidade de expandir sua vida emocional, Freud queria
que ela fosse sublimada.
O
recorte seguinte6
destacava o livro de Renato Mezan, A Vingança da
Esfinge. Com uma formação filosófica
pela Universidade de São Paulo antes de sua especialização
em psicanálise, Mezan habilitou-se como poucos para
conhecer a complexa rede de conceitos e mitologias que estruturam
a teoria freudiana. Como comenta J. C. Ismael: “Qualquer
leitor atento de Freud sabe que é impossível
alguém exercer a psicanálise legítima
sem que disponha de um sólido lastro de cultura filosófica,
para não falar na cultura tout court.”
Ismael
retorna logo depois com a resenha7
do livro A Vida Sexual de Freud8,
escrito pelo psicanalista argentino Santiago Dubcovsky e que
trás muitas curiosidades sobre o mestre vienense. Freud
teria se apaixonado pela primeira vez aos 16 anos por Gisela
Fluss, um ano mais moça, que esnobou seu afeto.
Essa
desilusão prematura pode explicar o fato de Freud ter
se casado aos 30 anos (talvez ainda casto) com Martha Bernays.
Tudo muito certinho, até que sua cunhada Minna (irmã
de Martha) vai morar com eles. Os comentários intra
muros então aludiam ao adultério de Freud,
embora nada tenha sido provado. O que Dubcovsky não
tem dúvidas é que ele tinha fantasias eróticas
com as pacientes.
O
artigo seguinte9
era uma página inteira no “Caderno 2” em
que Hamilton dos Santos entrevista o psicanalista peruano
Max Hernandes, um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica
Peruana, então de visita a São Paulo. Hernandes,
um dos autores do livro Entre el Mito y la História,
trabalhava também na tradução do italiano
para o espanhol do Il Dialoghi D’Amore, de
Leone Ebreo (Iehuda Abravanel).
Ao
ser indagado sobre o deslocamento da psicanálise do
consultório para as ruas, ou seja, do individual para
o social, Hernandes comentou: “Penso na psicanálise
também como uma teoria da cultura, claro que deslocá-la
para o social faz com que o psicanalista perca contato com
o melhor de sua atividade, que é o trabalho individual
no consultório.”
Os
três artigos seguintes desta série de recortes
referem-se diretamente ao doutor Freud.
Em
“A pedagogia do inconsciente e suas formas impossíveis”10,
Miriam Chnaiderman resenha o livro Freud e a Educação,
de Maria Cristina Kupfer11.
Escreve Miriam: “Podemos dizer que a geração
68 é também a geração que vem
criando os ‘filhos da psicanálise’. Na
década de 70, toda a juventude passou a procurar os
consultórios de psicanalistas, buscando um espaço
de elaboração do mundo interno, uma vez que
a ditadura minara qualquer outra possibilidade de construção
de si próprio. (...) Na década de 70 proliferavam
escolas alternativas. As crianças zanzavam, aqui e
acolá, e mocinhas com vestidos indianos tocavam flauta,
ou plantavam tomate, ou recortavam estrelinhas cintilantes.
Era moda não educar. A forma de resistência à
ditadura militar era não reprimir - e, Freud teria
mostrado, educar é reprimir.”
Que
confusão na cabeça da geração
Make love, no war! Logo, o livro de Kupfer tenta
mostrar os caminhos da pedagogia através do freudismo.
E a questão não é apenas verificar se
a psicanálise pode propor uma pedagogia, mas também
qual a estrutura pedagógica que pode dar conta da formação
de analistas.
Em
“O doutor Sigmund e seu misterioso desejo”12
a resenha é do livro Freud e o Desejo do Psicanalista,
de Serge Cottet13,
onde o autor explora a teorização freudiana
do complexo de Édipo como um dos indicadores pertinentes
do desejo de Freud.
O
historiador italiano Carlo Ginzburg também tem seu
livro Mitos, Emblemas e Sinais14
resenhado com uma análise acentuada para seu ensaio
“Freud, o homem dos lobos e os lobisomens”15,
onde chega quase a propor uma interpretação
alternativa àquela empreendida por Freud no caso do
homem dos lobos. Este ensaio analisa o significado do mito
para Freud e Jung e por que a mitologia é a problemática
principal das divergências entre os dois psicanalistas.
Para
Freud, a teoria da neurose serve para compreender o mito.
Para Jung, é o contrário. Ginzburg pondera as
duas posições e está mais a favor de
Jung, mas sua falta de precisão e de rigor fizeram
falir a teoria.
Na
véspera do cinqüentenário da morte de Sigmund
Freud (1856-1939), a Folha de S. Paulo16
publicou uma página dedicada a que pensam alguns intelectuais,
artistas e políticos sobre a psicanálise. Vejamos
algumas opiniões:
Haroldo
de Campos (tradutor e poeta): “Freud, como Marx e Nietzsche,
é uma dessas figuras que operaram um corte decisivo
no pensamento contemporâneo. O problema não é
crer na psicanálise, como se ela fosse um sucedâneo
de religião. É conhecer a importância
de seu papel no estudo do homem, de sua sexualidade e de seu
imaginário. Para mim, como poeta, é fundamental
a relação de Freud com a linguagem, com o sonho,
o trocadilho, o chiste, aspecto que ganha evidência
com Lacan mas que já havia sido enfatizado pelo teórico
suíço de literatura Walter Muschg. Em ensaio
de 1930, compara Freud ao poeta alemão Morgenstern
e aos surrealistas, em termos de sensibilidade com a lingüística.”
Paulo
Gaudêncio (psiquiatra): “Houve toda uma descoberta
feita por Freud sobre o funcionamento do aparelho psíquico,
que é uma teoria básica. Houve uma série
de desdobramentos que surgiram como dissidências, mas
em cima da base freudiana.”
Júlio
Bressane (cineasta): “Reconheço Freud e Lacan.
O resto é Tio Patinhas. Considero Freud um divisor
de águas do pensamento na história do conhecimento
humano.”
Jô
Soares (humorista e apresentador de tevê): “Psicanálise
não é como fantasma ou disco voador em que você
acredita ou não. Ela é uma verdade estabelecida
com resultados evidentes.”
Antônio
Houaiss (filólogo): “Freud: trata-se de uma das
cabeças pensantes mais influentes na humanidade contemporânea.
Como não levá-lo em alta consideração.”
Ignácio
de Loyola Brandão (escritor): “Deve ser uma coisa
boa porque tem muita gente fazendo. A psicanálise existe,
está aí e é bom para quem precisa.”
Marta
Suplicy (sexóloga): “De todas as modalidades
terapêuticas, a que eu acredito é a psicanálise.
Não cessam de aparecer novas promessas, das quais sempre
se percebe as limitações depois de um período
de modismo.”
Na
mesma reportagem há uma explanação sobre
o legado do pensamento e suas principais correntes.
Carl
Gustav Jung (1875-1961), discípulo de Freud e primeiro
presidente da Associação Psicanalítica
Internacional, nasceu em Kesswyl (Suíça). Rompeu
com seu mestre em 1912, ano em que publicou Transformações
e Símbolos da Libido. No livro, Jung chama sua
nova teoria de psicologia analítica. Em seu livro Psicologia
e Religião (1939) desenvolve os conceitos de arquétipo
e de inconsciente coletivo, que se afastam totalmente do conceito
de inconsciente formulado por Freud.
Melanie
Klein, nascida em Viena (1882) teve seu primeiro contato com
as idéias de Freud durante a Primeira Guerra Mundial,
quando foi psicanalizada por Sandor Ferenczi e começou
a trabalhar com crianças numa clínica de Budapeste.
Na origem de sua obra está o estudo das pulsões
agressivas e da culpa e inibições que elas geram
no psiquismo humano. Os kleinianos enfatizam o aspecto prático
da psicanálise.
Jacques
Lacan, nascido em Paris (1901) aproxima-se da psicanálise
ao buscar elucidar os mecanismos autopunitivos, e em particular
do narcisismo, isolando o caso específico da paranóia
e procurando em Freud uma resposta, quando trabalhava em sua
tese Da Psicose Paranóia em Suas Relações
com a Personalidade (1932). Sua principal contribuição
teórica foi a formulação de que o inconsciente
se estrutura como linguagem.
Notas
1) Ed. Escuta (Campinas, 1986).
2) Ed. Ágora (São Paulo, 1994).
3) Obras lidas até então: Psicanálise,
Judaísmo: Ressonâncias (Ed. Escuta, Campinas,
1987) e A Vingança da Esfinge (Ed. Brasiliense,
São Paulo, 1988).
4) Marli Berg: “Eva Reich: ‘O brasileiro é
um amargurado sexual’”. O ano de publicação
desta matéria provavelmente foi 1982, pois há
outra matéria na mesma revista analisando a morte da
cantora Elis Regina.
5) De Wilhelm Reich li em 1988 o seu Escuta, Zé
Ninguém. Adorei! Percorri A Função
do Orgasmo e ouvi muitos elogios à Psicologia
de Massas do Fascismo, que ainda não cheguei a
ler.
6) J. C. Ismael: “A psicanálise sem fascismo”.
O Estado de S. Paulo (13/março/1988).
7) “Freud visto pelo vão da fechadura”.
O Estado de S. Paulo (29/abril/1988).
8) Ed. Paz e Terra.
9) O Estado de S. Paulo (28/março/1989).
10) O Estado de S. Paulo (19/novembro/1988).
11) Ed. Scipione.
12) Geraldino Alves Ferreira Neto: O Estado de S. Paulo
(4/março/1989).
13) Ed. Jorge Zahar.
14) Ed. Companhia das Letras.
15) Hamilton dos Santos: O Estado de S. Paulo (6/maio/1989).
16) 22/setembro/1989.
-
Hélio Daniel Cordeiro é formado em
Filosofia pela FFLCH/USP e editor da revista MEDICINA E SAÚDE.
página
inicial
|
|