PSIQUIATRIA
Timidez
excessiva pode ser doença
JOEL
RENNÓ JR.
Grande
parte das pessoas sente-se ansiosa em situações
de exposição social. Alguns ficam nervosos nas
famosas entrevistas de emprego ou exposição
de seminários no local do trabalho. Outros são
tímidos para convidar alguém para um encontro
pra lá de especial. O coração pulsa forte
e acelerado, o rubor facial delata a timidez, as mãos
tremem e ficam com sudorese, os músculos ficam tensos,
tem-se um nó na garganta e um sentimento de frio na
barriga.
Quando
tal ansiedade é normal, logo ela passa. Outros podem
ficar com memórias negativas de tais situações
estressoras, ficando ansiosos pela simples lembrança
de tais episódios. Tais pessoas costumam ter medo de
serem avaliadas, criticadas ou julgadas de forma negativa.
Projetam que os outros a recriminam, a julgam severa e vorazmente,
considerando-as incompetentes ou incapazes.
Nas
situações em que a ansiedade, perante situações
sociais, torna-se intensa, incapacitante e paralisante, prejudicando
as atividades do dia a dia e os relacionamentos interpessoais,
com grande sofrimento psíquico, podemos fazer o diagnóstico
de Transtorno de Ansiedade Social (TAS) ou Fobia Social (FS).
Portanto, o TAS é muito mais que timidez. A timidez
é uma ansiedade normal que diminui com a exposição
e a experiência de vida, podendo até contribuir
para um desempenho melhor nas situações sociais.
Só falamos em fobia social quando a ansiedade é
persistente, de alto grau e incapacitação plena.
Há
várias situações temidas, tais como falar
em público, comer em público, assinar cheques
na frente de terceiros, freqüentar banheiros públicos,
abordar uma possível paquera.
A
ansiedade excessiva pode estar restrita a uma ou poucas situações,
sendo chamada, neste caso, de “circunscrita”,
ou então, pode ocorrer em várias funções
sociais (falar com estranhos, comer em público, expor
um trabalho para chefias), sendo aqui conhecida como “generalizada”.
O
TAS acomete cerca de uma em cada oito pessoas. As mulheres
são, ligeiramente, mais acometidas do que os homens,
sendo os quadros femininos mais propensos ao uso indiscriminado
de benzodiazepínicos (tranqüilizantes), enquanto
os homens abusam do álcool. O início do quadro
de FS, nas mulheres, costuma ocorrer no final da adolescência,
enquanto no sexo masculino, logo no início.
A
biologia da ansiedade inclui o medo condicionado, processado
por vias ou conexões existentes entre algumas estruturas
do cérebro como o tálamo, o córtex sensorial
e o sistema límbico (amídala e hipocampo). Este
último rege as emoções e sentimentos.
Humanos com lesão na amídala cerebral (não
confundir com a outra “amídala”, a da garganta),
não conseguem reconhecer o medo na face de uma pessoa
e não identificam os estímulos que levam ao
perigo.
Poderíamos
dar o nome de “circuito do medo” às conexões
entre tais estruturas cerebrais. A ativação
da amídala cerebral - principal estrutura responsável
pela sensação do medo -, parece ter um componente
genético responsável, com vários mensageiros
químicos cerebrais envolvidos como a serotonina, a
norepinefrina, o glutamato e o GABA).
O
TAS pode levar a pessoa a deixar o trabalho ou a escola, pode
impedir que as pessoas façam novos amigos, enfim, trazer
enormes prejuízos sócio-funcionais às
mesmas. Tais pessoas começam, em qualquer contexto
social, a ter pensamentos automáticos negativos, como
“vou dar vexame”, “vão me considerar
incapaz ou despreparado”, “vou ter um branco ou
gaguejar”. Tais pensamentos já produzem o medo
que leva à resposta de ansiedade, com todos os sintomas
físicos já citados. Com tanto sofrimento, alguns
comportamentos de esquiva e mesmo evitação são
realizados, mudando a rotina de vida de tais pessoas.
Geralmente,
os pacientes com FS têm também depressão
e abuso de álcool ou drogas.
Tratamentos
A
terapia comportamental cognitiva costuma ser útil no
tratamento, envolvendo quatro etapas importantes:
1) Psicoeducação: É importante que o
paciente tenha um conhecimento aprofundado sobre o transtorno,
tendo, através de um aprendizado pleno mais confiança
e determinação para superar o problema.
2) Reestruturação cognitiva: Faz com que o paciente
entenda o quanto os pensamentos automáticos negativos
influem na ansiedade gerada, ensinando técnicas de
combate a tais pensamentos.
3) Treinamento de habilidades sociais e técnicas de
controle de ansiedade: Técnicas úteis para um
melhor desempenho nas situações sociais
4) Exposição: Enfrentamento progressivo das
situações temidas.
Quanto
às medicações utilizadas, incluímos
os beta-bloqueadores (controlam sintomas específicos
como o tremor e a taquicardia) e os antidepressivos. Os antidepressivos
mais utilizados são os que atuam sobre a serotonina,
ou os conhecidos de duplo mecanismo de ação,
que atuam tanto sobre a serotonina quanto sobre a noradrenalina.
É
importante que as pessoas não se decepcionem, durante
o curso do tratamento, com eventuais recaídas. Isso
pode acontecer, é normal. Qualquer ser humano, durante
o processo de novos aprendizados comete equívocos ou
falhas, isso é típico. A família também
é uma forte aliada. O paciente precisa ter um papel
ativo na recuperação, não pode ficar
de braços cruzados jamais. No final, todo esforço
valerá a pena.
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Joel Rennó Jr. é médico psiquiatra.
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