PSICOLOGIA
Mudança dá medo?
JEANE CLÁUDIA ARAÚJO LOBO

     No ambiente de trabalho onde as mudanças são a única certeza, encontramos em todos os escalões, corpos que retratam o embutimento das sensações que o medo da mudança provoca tentando manter a todo custo controle sobre si dessas inundações desconfortáveis oriundas da possibilidade da mudança.
     São ombros super levantados, pescoços endurecidos, coluna arqueada, olhos desconfiados, falas temerosas, silêncios significativos, mãos endurecidas, geladas, mexericos, ausência de criatividade e compromisso, repetições, maldades.
     As empresas não se dão conta desses exércitos quase invisíveis retratados nos corpos dos seus colaboradores e, cobram desempenho, ação, produção, motivação, criação, números. O que nos importa, dizem: “Atingir a meta proposta, estar frente à concorrência!” com o discurso da importância da qualidade em época de globalização.
     As pessoas também não se dão conta de que habitam em si esses exércitos invisíveis que tiram delas o bem estar, a confiança, o compromisso e seguem avante “tentando um jeito melhor” de estar no mundo. O amanhã vem acompanhado da esperança de que esteja melhor, mais produtivo, mais animado, menos desconfiado, menos assustado. O amanhã é sempre frustrante.
     Pensamento positivo é fundamental, revigora, porém, só ele não faz o milagre da adequação do corpo aos desafios que o medo e a mudança exigem.
     Há uma ausência, um vazio de educação somática (soma, vem do grego = corpo). Conhecer o corpo e o que ele retrata, é ainda nos dias de hoje, uma grande incógnita. Me faz lembrar o enunciado da esfinge: “Decifra-me ou te devorarei”. Somos mesmo devorados por nós mesmos em nossa ignorância em não decifrar o que o medo, a mudança, o amor, e tantas outras emoções podem fazer em nossos corpos e influenciar na qualidade ou no desastre em estar no mundo, onde a mudança é nossa única certeza.
     O corpo é sempre o nosso bem amado aliado. É preciso criar um e-mail diário com ele! Não é assim que fazemos todos os dias quando queremos saber quem nos procura, frente ao nosso computador?
     Todo o corpo noticia o que vai nele, para na consciência poder operar. Basta clicar no dispositivo da atenção e a memória celular vai indicando como a consciência corporal quer se comunicar.
     Por exemplo: imagine que você está empregado (coisa difícil nos dias de hoje) e o seu diretor manda-o chamar! Não é hábito dele chamar você. Isto te leva a um susto e, contaminado por todas as notícias de desemprego, você pode ficar num estado de atenção tão profunda e nem mais se dá conta de que parou de ouvir o que se passa ao seu redor, que a respiração tornou-se pequena indo só até a garganta, que a coluna endureceu, que os braços se retesaram, que as pernas bambearam e que o coração disparou pela quantidade de adrenalina na corrente sangüínea e, pálido você segue rumo à sala do diretor com mil diálogos de defesa e possíveis desculpas, só na cabeça, só na cabeça! Totalmente atravessado pelas notícias do fora e surdo ao que se passa por dentro.
     Serei eu dessa vez? Como vou fazer se me mandarem embora justamente agora?!!!
     Ao entrar na sala, o chefe pede para providenciar um novo projeto porque o anterior estava excelente!!!
     A excitação era tão grande e o corpo estava tão usado no máximo da tensão muscular, no máximo da compressão das vísceras reduzindo o espaço interno, que o colaborador nem se dá conta da boa notícia e quando sai da sala, se pergunta: “O que ele falou? Será que foi isso mesmo?” O que será que eu comi? Estou com um mal estar infernal!!! Era para eu estar feliz e no entanto estou me sentindo tão mal! e continua prosseguindo sem se dar conta do que ocorreu com ele mesmo e com suas intensidades e a comida do almoço fica responsabilizada pelo mal-estar.
     Não fomos educados para perceber o nosso corpo, os nossos corpos emocionais, e o que querem nos comunicar. Quando percebemos o corpo é apenas por indicativos: bonito, forte, saudável, doente, jovem, velho, estressado. É como se o corpo fosse uma máquina de fazer coisas comandado pela cabeça.
     Estar familiarizado com as notícias de nosso corpo, nos favorece a encarar os atravessamentos que as mudanças impõem de um outro lugar de menos medo, porque podemos aprender a identificar não só o corpo do medo como tantos outros corpos, e intervir no processo. Isto é gerenciar-se. Isso também é educação e chama-se Educação Somática Existencial.
     Estar de posse de si é encontrar outras maneiras de estar no mundo, e é uma das chaves que abrem as portas da compreensão de nós mesmos com menos dor e aflição, dando continuidade ao projeto biológico do nosso corpo que é a expressão da nossa potência real dentro da evolução da espécie humana, dando novas respostas ao velho conhecido que é confortável, mas que nos escraviza e nos limita. Esta prática nos leva ao gerenciamento de nós mesmos, permitindo abandonar o estado de “vítimas das situações”, e conquistar o prazer de nos tornarmos donos de nós mesmos e do nosso próprio processo existencial, ampliando o número de respostas possíveis frente às situações.
     As mudanças a partir disso, certamente podem perder a sua carranca amedrontadora.

- Jeane Cláudia Araújo Lobo é psicodramatista, educadora somática-existencial e consultora empresarial em desenvolvimento humano.

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